sábado, 9 de abril de 2022

 

UM PROBLEMA DE ORDEM CONCEITUAL E SUAS IMPLICAÇÕES

Syro Cabral de Oliveira

 

                        Em primeiro de julho do ano 2002, um grupo de professores de Filosofia reuniu-se com uma professora supervisora de uma determinada escola técnica do Estado do Rio de Janeiro, a seu pedido.

                        O assunto que os moveu à reunião foi a controvérsia em torno de prova única aplicada aos alunos daquela escola. Segundo a referida professora supervisora, tal prova não deveria ter caráter avaliativo de conteúdo, mas sim o de avaliar habilidades e competências.

                        Enquanto, de um lado, a professora supervisora defendia a manutenção da referida prova, de um outro lado, os professores de Filosofia questionavam não o problema de sua manutenção ou não, mas a forma pela qual ela seria elaborada e seu aspecto avaliativo. Se de um lado, os professores permaneciam a sustentar a ideia de que não estavam contra a prova única propriamente dita, mas a forma pela qual ela seria elaborada, a supervisora tentava rebatê-los com argumentos de que estavam desinformados.

                        Nesse momento, desapareceu, obviamente, o objeto de acordo comum e, concomitantemente, a argumentação, pois, é fato que só há argumento se e somente se houver objeto de acordo comum. Na ausência de tal objeto, a argumentação cessa necessariamente e juntamente o feedback1.

                        Foi, então, nesse interregno da discussão que tais professores perceberam a verdadeira natureza do problema da professora supervisora.

                        Infelizmente, a professora incorria em dois erros conceituais. O primeiro estava ligado ao conceito de interdisciplinaridade, o qual, dizia a supervisora o ter adquirido com a leitura de um texto em que o autor o ilustrava com o mencionado conceito, recorrendo à orquestra sinfônica. No referido texto, segundo a professora, o autor afirmava que a interdisciplinaridade ocorre no momento em que os músicos seguem a marcação de tempos executada com a batuta, pelo regente.

                        Até aí não haveria nenhuma dificuldade, em princípio. A dificuldade começou, no entanto, no momento em que a professora fez uma analogia entre o conceito de interdisciplinaridade, utilizado na orquestra sinfônica e o conceito do mesmo termo, utilizado nas escolas de formação geral. É claro que o conceito de interdisciplinaridade no primeiro caso está relacionado à obediência, à ordem de funcionamento etc., que vai resultar na harmonia. Cada músico executa seu instrumento de acordo com a marcação do maestro. Não há interligação entre um músico e outro. O que importa são os sinais, ou movimentos, observados pelos músicos, executados pelo regente. Já no segundo caso, ou seja, nas escolas de formação geral, a interdisciplinaridade está diretamente relacionada ao conjunto das disciplinas, ou matérias, lecionadas. Neste caso, a interdisciplinaridade está ligada à capacidade de o professor fazer o aluno perceber que naturalmente é possível fazer uma leitura de cunho filosófico, histórico, geográfico de um único texto. Na verdade, é a visão de que o conhecimento é uma totalidade. Sua fragmentação é, simplesmente, um recurso didático para facilitar o processo de ensino-aprendizagem.

                        Devido às nossas necessidades atuais, procura-se privilegiar a interdisciplinaridade para superar a ideia que passou a predominar, a partir da Idade Moderna, da formação dos especialistas, isto é, cada profissional não tem necessidade de ser versado em diferentes habilidades. Pelo contrário, o que se exige dele é a qualificação isolada, aos extremos, em uma determinada atividade. E essa prática atinge seu auge, de maneira extraordinária, em meados do século XX, com o chamado período fordista.

                        Neste caso, o que está em jogo é a ideia de divisão de mão de obra. Cada indivíduo executa, isoladamente, uma determinada atividade, dando a perfeição ao produto final, sem a necessidade de uma qualificação que permita uma visão geral de todas as atividades isoladas.

                        Em um segundo momento, a professora sustentava que a saída para dar uma formação diversificada aos alunos seria a aplicação de uma prova única, que visasse não o conhecimento de conteúdo, mas as habilidades e competências. Ocorre, entretanto, nesse momento, que a professora incorria em outro erro, pois demonstrou não discernir, com clareza, o conceito de especialidade.

                        Ora, como ficou exposto acima, a especialidade é a capacidade que o indivíduo tem de exercer uma determinada atividade, de maneira isolada, sem depender de outros conhecimentos que não sejam específicos àquela atividade. É o caso, por exemplo, do músico de uma orquestra sinfônica, ou melhor ainda, dos metalúrgicos, em uma fábrica de automóvel, onde cada metalúrgico é um especialista, aos extremos, em uma determinada atividade, a ponto de não ter a menor noção do produto final que, no caso específico aqui, é o automóvel. Este torna-se, à vista de cada especialista, um fetiche. Nesse caso, o especialista não se reconhece na sua própria obra, a qual torna-se-lhe estranha. É o trabalhador alienado, em seu sentido rigoroso. E é isso que um bom educador deve combater, com todas as suas forças que as possa utilizar.

                        Pois bem. Vejamos, rapidamente, como surgiu a ideia da formação de especialista.

                        Da Grécia Antiga, até a Idade Média, a Filosofia designava a totalidade do conhecimento racional. A partir da Idade Moderna, “o vasto campo filosófico entrou num processo de redução”. A realidade a ser conhecida passou a ser dividida, recortada, despertando estudo especializado. Era a separação entre ciência e Filosofia.

                        Com o processo de especialização do mundo científico, cada ciência passou a investigar campos determinados da realidade e o faz “ainda hoje de forma cada vez mais localizada.” Hoje, vivemos uma era de especialistas, que se fecham em determinados domínios do saber e, com isso, perderam “a visão mais ampla do conhecimento humano.” Sabem muito sobre pouco e nada sobre a amplitude do conhecimento. O conhecimento tornou-se fragmentos da totalidade do universo do ser. “Nesse contexto, a Filosofia passou a ter o papel, entre outros, de recuperar a unidade do saber, de questionar a validade dos métodos e critérios adotados pelas ciências. Isto é, passou a desenvolver o trabalho de reflexão sobre os conhecimentos alcançados por todas as ciências, além da procura de respostas à finalidade, ao sentido e ao valor da vida e do mundo.”

                        No que foi exposto acima, a maior dificuldade, infelizmente, reside no que segue. É que a maioria de nossos professores é especialista e, como tal, não vê o mundo senão por meio desse ponto de vista, ou seja, da especialidade, à maneira dos freudianos e marxistas. Para os primeiros, todo indivíduo sofre de uma espécie de neurose, ao passo que, os últimos não veem outra coisa, nas sociedades, senão luta de classes. A prova dessa visão limitada, ou melhor, desse reducionismo, é que nossos alunos, e por que não alguns professores, também, passam o tempo todo questionando a importância das disciplinas, tais como, Filosofia, História, e outras afins, e nunca questionam acerca da real importância de matérias como Matemática, Física, Química etc. O que eles não percebem é que a maioria das pessoas vive na prática, no seu dia a dia, sem os conhecimentos dessas últimas disciplinas e, pelo contrário, não consegue viver sem os conceitos filosóficos, tais como, o de política, ética, justiça, direito, dever, liberdade, relação causa-efeito, ideia de grandeza, espaço etc. Tem esses conceitos não como descobertos ou elaborados, mas como coisas dadas. Vive, no seu dia a dia, com esses conceitos, inconscientemente, e não percebe sequer que, na verdade, são obra da criação humana e, portanto, não existem, em si mesmos, na realidade externa e sim somente em nossas mentes, como entes intramentais. Não percebe, também, que não cabe ao matemático, ao religioso, ao físico, ao especialista, em qualquer que seja sua área de atuação, perguntarem, respectivamente, pela natureza do número, da religião, do movimento, da especialidade, porque, estas questões são, naturalmente, de ordem filosófica e, como tal, são de exclusividade dos filósofos2. Não percebem, ainda, que é de exclusiva competência de os filósofos armarem sistemas tão claros como os diamantes sem jaça, que os leigos os seguem, com uma fé apodíctica, como fossem obras divinas. E, além disso, que os fundamentos de todas as ciências se acham na Filosofia. E daí, com toda justeza, ser denominada de rainha. E, por último, não conseguem perceber, também, que ao matemático cabe apenas admitir a existência a priori dos números e operar com eles. A pergunta se os números existem em si mesmos ou não, se são entes ontológicos ou entes de razão, é exclusivamente da competência dos filósofos. Portanto, os cientistas operam com um mundo já dado, de antemão, e uma grande parte deles não percebe sequer que foram os filósofos que lhe deram sentido.

                        Sem esses conceitos explicitados pelos filósofos, não poderíamos, talvez, sequer caminhar, com tanta desenvoltura e com toda segurança de que o sol é uma estrela de quinta grandeza, em uma manhã ensolarada, pelas ruas das cidades…

1(…) No relacionamento entre pessoas, ‘damos’ feedback a alguém quando oferecemos ao outro oportunidade para explorar alternativas sobre o que percebemos a respeito delas, e ‘recebemos’ feedback ao percebermos como o outro reage a nós. Neste sentido, feedback nos permite ver, como num, em um enfoque crítico, a adequação ou a inadequação de nossas ideias, sentimentos ou ações – Dicionário de Comunicação, Ed. Codecri.

2. Designamos de filósofo não necessariamente quem passou por uma academia – isto porque as nossas atuais academias são verdadeiros leitos de Procusto, cuja função não é outra senão a de propriamente castrar o verdadeiro filosofar mais do que fomentá-lo –, mas aquele que possui uma predisposição natural para tal.

sábado, 26 de junho de 2021

 

CONFLITO DE VALORESi

Syro Cabral de Oliveira

Uma andorinha só não faz, verão!


                                                                            A andorinha e os outros pássaros

Uma andorinha, tendo visto um lavrador semear visco no campo, mandou reunir todos os pássaros e disse-lhes que o visco servia para fazer redes de passarinheiros e armadilhas. A andorinha pediu-lhes insistentemente que a ajudassem a apanhar as sementes e a destruí-las. Embora ouvissem o que ela lhes disse, os outros pássaros não fizeram nada e, assim, com o tempo, o visco rebentou, ganhando raízes no solo. Mais uma vez, a andorinha avisou-os, dizendo-lhes que ainda não era tarde para evitarem as complicações se atuassem imediatamente. Mas os pássaros continuaram a ignorá-la e a andorinha deixou os bosques e foi viver na cidade. O visco cresceu alto e forte e foi colhido. Mais tarde, a andorinha viu alguns dos pássaros que tinham sido apanhados recentemente nas redes feitas com o visco contra o qual ela os avisara. Agora, eles tinham aprendido a lição, mas era demasiado tarde.

Os homens sábios sabem prever os efeitos de certas causas, mas os loucos nunca acreditarão neles, até ser demasiado tarde para impedir o desastre. Demoram-se e arriscam-se.

ESOPO

        Para os pais, a Escola está cumprindo com o seu papel satisfatoriamente, mas na realidade isso não vem ocorrendo em sua plenitude. Desse modo, quando algum professor procura seguir à risca os procedimentos inerentes a uma boa educação (formação da conduta humana), esses procedimentos, num olhar precipitado, parecem ser um desvio da normalidade. A razão disso está justamente no confronto de ideias que se dá entre o consueto e a aplicação da arte, entendida essa como capacidade intelectual que faculta a mais alta distinção entre o falso e o verdadeiro. Esta arte, quando posta em ação de modo absoluto, se apresenta como uma transgressão ao habitual. Como o habitual não é nada mais nada menos do que a repetição, com uma certa frequência, de um determinado evento, à primeira vista parece ser o correto – e é assim mesmo que as pessoas costumam pensar: tudo que se repete, obedecendo a uma certa sequência mais ou menos constante, é o correto –, os pais, em face disso, entram obviamente em choque quando veem esta “normalidade” quebrada, já que aquela confiança cega, que eles sempre depositaram nos seus filhos – é colocada em xeque. Esta frustração não é de fato à-toa, porque, a interiorização de nossos valores, na verdade, é fruto da repetição de uma gama de modelos preestabelecida por uma superestrutura social que dita o que ela determina ser o “correto”. Desse modo, a coisa se complica ainda mais quando se tenta aplicar estes atos repetitivos genericamente de maneira irrefletida. Quando se tem, por exemplo, uma verdade particular e se queira aplicá-la ao universal.

Ora, vejamos, pois. Em virtude da frequência com que se dê um evento, as pessoas ingênuas tendem a tomá-lo como uma lei. Ora, a verdadeira essência da lei não está nem sempre na repetição de um fato, mas na própria natureza deste. Como o modo de pensar do chamado homem moderno (para não fazer uso de um termo muito em voga e pomposo: globalizado) está inteiramente influenciado pelo atual modelo científico, isto é, pela démarche indutiva, que se funda justamente na frequência com que se dê um evento – o que não é errôneo para casos particulares –, as pessoas comuns seguem esse modelo como se fosse uma verdade absoluta. O erro não está, muitas vezes, na repetição de um evento, quando esta é considerada dentro de uma determinada especificidade, mas na aplicação da conclusão de que a lei é sempre fruto da frequência de uma repetição, isto é, quando se toma esta repetição particular como uma regra geral e se a aplica ao universal. Ora, se isso fosse verdadeiro, o fato, por exemplo, de alguém jogar uma moeda para o alto cinquenta vezes e todas as vezes que a moeda tocar o chão ter a coroa voltada para cima, poderíamos concluir, a partir daí, com toda justeza que a próxima vez que a moeda for lançada ao ar cairá necessariamente no chão com a coroa voltada para cima. No entanto, todos sabemos que a coisa não se passa precisamente assim, porque, por mais que haja a repetição, a chance de cair cara ou coroa voltada para cima continuará sendo de cinquenta por cento no próximo lançamento da moeda para o ar. A menos que se trate de uma moeda viciada.

Diante da inadequação, isto é, de tomar o acaso pelo necessário, as pessoas se sentem frustradas e, de imediato, concluem que é a realidade que está errada e não a sua interpretação dos fatos influenciada por um método de natureza indutiva, que está inteiramente inapropriado para se fazer dele um uso de caráter absoluto. Consequentemente podemos, logo, concluir, com toda propriedade, que formar estrutura é fácil, o difícil é quebrá-la. E é assim mesmo que nascem os paradigmas.

        Daí, no caso específico aqui, o grande conflito. Entre um professor e uma Instituição dificilmente alguém hesitaria em ficar com a segunda. Porque, na ordem dos sentidos, imagina irrefletidamente que o maior sempre sobrepuja o menor. Nunca pensa que isso é absolutamente verdadeiro no âmbito do quantitativo e não no do qualitativo. Sabemos que, na esfera dos valores morais positivos, estes têm sido, ao longo dos tempos, objeto de fracasso. A imoralidade tem sempre triunfado de maneira colossal, como já dizia o nosso grande e saudoso Rui Barbosa, “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

        Desse modo, a Escola continua fingindo que está cumprindo com o seu papel satisfatoriamente, pois, todos os professores que insistirem nessa direção, isto é, a de optar pela efetivação de ações que tenham por objetivo a formação do caráter nobre no jovem, pagarão obviamente um preço alto. Para que esse preço não se efetive, cada professor, de modo individual, deverá abdicar de seus projetos pessoais em prol de um pseudo-universal. E assim, a cultura do fracasso, a cada dia que passa, vai se intumescendo assustadoramente. Nesse sentido, a irresponsabilidade vai grassando e universalizando-se em todos os níveis da sociedade. Vejamos como a cultura irrefletida vem se oficializando.

        Numa determinada escola pública ocorreu um episódio bastante engraçado, com um professor, para não dizer muito ignóbil e asqueroso. Esse professor marcou uma avaliação para a primeira semana após o período de recesso, o que pareceu muito extravagante e fora de propósito à vista de alguns de seus colegas de profissão. Não sabiam estes que a sua formação não o permitia compreender, com clareza, a linha divisória entre o que está ligado a um caráter nobre e um caráter baixo. Isto porque, no seu modo de entender as coisas, há na verdade dois mundos que não se misturam. Um de seres absolutamente autogovernáveis, isto é, de seres realmente humanos, e um outro que na realidade não passa de um fosso, onde vivem seres que de humano só têm a aparência. Não sabemos, nesse caso, distingui-los, com clareza, se de fato são seres humanos ou autênticos animais irracionais, que se deixam guiar apenas pelos instintos, os mais abomináveis possíveis. Pois o processo de educação não é outra coisa senão análogo ao cultivo de uma planta. Seu desenvolvimento é diretamente proporcional à seleção cuidadosa da semente, à escolha do local onde ela deve ser colocada para germinar, ao acompanhamento de sua germinação etc. Em consequência disso, dá-se para perceber que o desempenho de suas características essenciais depende diretamente dos cuidados minuciosamente despendidos ao longo de sua formação, compreendendo esta como o coroamento de todos os valores intrínsecos à sua própria especificidade. Nesse sentido, para esse professor, nossas responsabilidades começam no momento em que assumimos determinados compromissos, sobretudo, quando envolvem outras pessoas diretamente. Assim, ele não conseguia graduar as nossas responsabilidades. No seu modo de pensar, elas são iguais tanto no início de uma determinada jornada de trabalho como no seu fim. Quer dizer: ele sempre se deixou guiar pelo princípio da coerência moral. O fato de um profissional chegar atrasado 30 minutos no primeiro dia de trabalho, em relação à hora predeterminada de entrada em seu setor, 40 minutos no segundo, 50 minutos no terceiro, 60 minutos no quarto dia não lhe dá o direito de chegar 70 minutos no próximo dia. E, além disso, no seu ponto de vista, jamais poderemos esperar que esse funcionário chegue ao próximo dia atrasado em relação ao seu horário predeterminado. Se o seu horário de entrada for às 8h da manhã, por exemplo, deveremos esperá-lo sempre que chegue às 8h da manhã. Não é o hábito do vício que deve tornar-se uma regra, mas o contrário, é o hábito do bom comportamento que deve ser estimulado, para que se torne uma frequência em nossas vidas.

        Se os professores não derem o bom exemplo, cumprindo com seus deveres e fazendo com que os seus alunos, por seu turno, cumpram também os seus, nunca poderemos esperar que o país venha a produzir estadistas de grande excelência como outrora, pois, não é, ao que parece, mais verossímil que desses últimos saiam os professores, como soem pensar, mas o contrário parece ser mais convincente. Assim, quando assistimos a alguns profissionais da educação reclamar dos atuais políticos, atribuindo-lhes todas as responsabilidades acerca dos erros e das mazelas por que passa o país, vemos que eles não percebem que de fato trata-se da cultura, já arraigada nesse povo, de que a responsabilidade por todos os problemas de ordem social é sempre do outro e nunca veem com clareza que são eles próprios também a fonte da degradação moral. Não percebem também que o papel da imprensa e dos governantes é justamente o de reproduzir valores já existentes na sociedade. Logo, se nós, profissionais da educação, não fizermos uma cuidadosa reflexão em torno dessa pseudocultura e não procurarmos dar o basta nela, rogando pelo princípio de autoridade – princípio este fundado na arte ou sabedoria a mais excelsa possível – já muito eclipsado nos tempos atuais, correremos o grave risco de um dia, não muito distante, não podermos entrar em sala de aula.

        E o mais bizarro de tudo isso é que não faltam pessoas para elogiar o jeitinho brasileiro.

iConflito de Valores é um texto antigo, do início da primeira década do século XXI, que muito hesitávamos em publicá-lo. Em virtude das circunstâncias atuais, resolvemos torná-lo público. Agradecemos comentários.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

TRANSVALORAÇÃO DA VISÃO DO ATUAL CONCEITO DE NATUREZA

Syro Cabral de Oliveira


A Natureza, através de sua própria essência, entra em conflagração e se refaz de tempo em tempo. É o verdadeiro devir cíclico. Assim, as grandes pandemias, ao que nos parece, não deixam de ser um processo natural, que se manifesta periodicamente, onde ocorrem grandes concentrações ou aglomerações humanas, sem, no entanto, esquecermos que as próprias ações dos bandidos, muitas vezes, exercem também esse papeli, sobretudo quando se digladiam entre si, pois, somos parte do Cosmos e consequentemente agimos consoante as suas ações. Nesse sentido, é muito natural que, no campo das ações da natureza, se procurem encontrar deliberadamente responsáveis para os desastres que atingem os seres humanos, mesmo se sabendo que a própria natureza se encarrega espontaneamente de eliminar todos os excessos que ocorrem no seu interior. Isto porque somos produtos de uma cultura que nos incutiu hábitos de procurarmos encontrar, a qualquer custo, um culpado para todos os eventos que se manifestem no globo terrestreii, sejam eles naturais ou não, sem atentarmos sequer que somos uma fonte de pensamentos pessimistas. A razão disso se deve justamente ao fato de que fomos educados, ou melhor, modelados, há milhares de anos, dentro de um determinado paradigma que nos leva a vermos o mundo a partir de um único e mesmo ponto de vista e, que, mesmo assim, este nos parece absolutamente natural.

Nas áreas de grandes concentrações humanas, aliada a um consumo desenfreado, em que se estimula o homem a viajar para lugares distantes do globo terrestre, levando consigo dinheiro para gastar em ambiente de grandes aglomerações humanas, acaba também por espalhar doenças, que surgem a partir de hábitos de comportamento específicos de determinados povos. Fato esse que ocorre à semelhança dos pássaros e outros animais – claro, em uma escala menor –, que levam sementes diversas, inclusive as de ervas daninhas, através de suas fezes, espalhando-as a regiões longínquas. É, de um certo modo, a natureza agindo sorrateiramente.

Essa Ciência, tão idolatrada por um grande número de pessoas, que descobre e fomenta os meios que aumentam o bem-estar do homem, é a mesma Ciência, aliada à tecnologia, que, ironicamente, descobre meios que levam o homem a se deslocar, rapidamente, de uma extremidade a outra do globo terrestre, fazendo com que as doenças se igualem entre todos os homens.

É óbvio que isso se dá porque, justamente, os cientistas não procuram conhecer as consequências de suas descobertas, mas tão-somente se elas atingem cem por cento seus desígnios. O que importa, no âmbito da ciência médica, por exemplo, é que o antibiótico mate as bactérias, independentemente que mate também o paciente. É claro que se pensa, nesse caso específico, em termos numéricos. Se entre cem doentes, 60 ou 80% são salvos, não se leva em consideração os que morrem, infelizmente.

Depois da explosão de uma pandemia, só se mencionam as consequências e procuram encontrar somente os erros nos esforços de seu combate e seus respectivos responsáveis, sem jamais, no entanto, falar das causas do espalhamento do vírus e seus verdadeiros responsáveis.

Ao não se reconhecerem as ações espontâneas da natureza e procurarem sempre um responsável para as suas manifestações, não deixa de ser uma maneira equivocada de se verem as coisas em todo seu conjunto. Se subirmos ao cume das montanhas e olharmos para baixo, vamos perceber que as cidades são um grão de areia diante da vastidão das áreas verdes e das despovoadas. Portanto, os males que as pessoas podem causar ao meio ambiente são muito diminutos em relação à vastidão do universo terrestre intacto. Daí, podemos concluir, claramente, que o discurso que objetiva encontrar responsáveis para os danos ocorridos no meio ambiente, não deixa de ser uma tentativa de desviar os olhares das pessoas do verdadeiro projeto previamente definido, cujo escopo poucas são as pessoas que conseguem alcançá-lo ou vislumbrá-lo.

Sabemos que a maioria esmagadora das pessoas, independentemente do seu grau de instrução, é vítima da manipulação de discursos muito bem elaborados e arquitetados nos bastidores dos interesses ideológicos. Infelizmente ou felizmente, algumas pessoas, através de uma ordem espiritual, conseguem governar o mundo, por meio de ações de uma mão invisível, e conduzir o rebanho humano, mudando sua opinião frequentemente, para lá e para cá, à semelhança de um pêndulo de relógio que, ora está para um lado, ora está para um outro.

A maioria da população mundial é vista como um bando de pessoas que vive em um constante estado letárgico diante de uma minoria, muito lúcida, que conduz o grande rebanho. O próprio presidente da Rússia, Vladimir Putin, já fez menção a essa capacidade oratória de conduzir e modelar a opinião das pessoas.

No meio do cenário das representações da esfera de poder – quer seja no âmbito dos interesses políticos, quer no dos econômicos –, é certo que existe um embate, um jogo de forças que objetive acirrar os ânimos, ou melhor, estimular as emoções, numa palavra, as paixões humanas, segundo um plano preestabelecido de antemão. Nesse tabuleiro, as forças opostas digladiam-se constantemente para ocupar e controlar o espaço hegemônico do mando. Colocam-se em prática seus projetos de caráter persuasivo e logo em seguida querem ter conhecimento do resultado de suas ações, que se desenvolvem, às vezes, em um período de uma semana ou um pouco mais. Os Institutos de Pesquisas de Opinião Pública, que funcionam como uma espécie de termômetro, lançam sondagem de opinião para verificar os efeitos causados na sociedade advindos dessas ações. De acordo com o resultado, intensificam-se tais ações ou as modificam, com o objetivo de atingir seus fins almejados.

Seja lá como for, convocamos os nossos pares para uma grande reflexão em torno da realidade que nos cerca e, ao mesmo tempo, para o cultivo de uma vida isenta de perturbações, cheia de sentido e amor-próprio, para ser premiada de uma longevidade próspera e repleta de encantos.

É hora de repensarmos as nossas próprias ações e também as nossas passividades diante dos acontecimentos que nos afligem e, evidentemente, mudarmos os nossos comportamentos e paradigmas perante a realidade cruel, que nós mesmos a construímos, inconscientemente, e deixarmos a natureza agir em toda sua plenitude, tanto fora de nós como em nós mesmos, e sermos os nossos próprios terapeutas. Devemos abandonar toda espécie de artificialismo, que tem por objetivo último de eclipsar-nos em relação à atuação da natureza por si mesma, pois é certo que o homem não muda e tampouco controla as ações naturais, mas pode conhecê-las para conviver harmonicamente e sem temor com elas.

Deveríamos, desde muito cedo, procurar conhecer a nossa verdadeira constituição corporal e toda a nossa verdadeira natureza – visto que somos um microcosmo –, para que, desse modo, pudéssemos proceder os cuidados necessários de nós mesmos. Com efeito, afastamo-nos tanto de nossa própria natureza que chegamos até mesmo desprezar inteiramente o nosso próprio corpo, deixando-o, na maioria das vezes, em segundo plano e ao seu bel-prazer. Ingerimos líquidos e comemos alimentos que, muitas vezes, são totalmente prejudiciais ao nosso corpo, sem, no entanto, atentarmos para tais malefícios. Infelizmente, não nos conscientizamos suficientemente ainda de que o mal é o que entra pela boca e não o que sai, como muitos soem pensar. Nesse sentido, deveríamos a aprender a nos observar e, além disso, a selecionar tudo aquilo que terá, supostamente, uma potência de desencadear uma ação nociva em nós. Assim, com esse autoconhecimento, tornar-nos-íamos aptos a desenvolver uma técnica terapêutica que teria por objetivo a auxiliar-nos nos cuidados de nós mesmos.

Um processo de conscientização de que a mente é própria para governar, ao passo que o papel do corpo é o de obedecer, levar-nos-íamos, certamente, a uma superioridade em relação a povos que não procuram desenvolver esse aprendizado promissor, pois, não há corpos belos sem que haja de antemão mentes belas. Assim, deveríamos deixar de lutar incessantemente por uma beleza efêmera, constituída através de pinturas e adornos, mas liberarmos todas as nossas energias em prol de uma beleza duradoura e realmente contemplativa.

Uma boa educação nos levaria a conscientizarmos de que, muitas vezes, um médico, ao prescrever-nos uma droga, cujo efeito se manifesta exatamente ao contrário do que esperávamos, nem sempre isso ocorre em função de um erro do médico ou em virtude de sua ignorância acerca de seu campo de ação, mas porque, na maioria das vezes, desconhecemos a verdadeira natureza de nosso próprio corpo e, consequentemente, não sabemos fazer-lhe uma descrição precisa das manifestações sintomáticas apresentadas nele.

Assim, poderíamos concluir cabalmente que a grandeza do homem não está ligada, em hipótese alguma, às coisas advindas do seu exterior, mas, pelo contrário, está intimamente relacionada a uma mente sã e totalmente desapegada de um mundo material e escravizador da natureza humana. Uma medicina que busque meios para curar um doente de um mal qualquer, localizado em uma das partes do seu corpo, desassociando-o do todo, é uma medicina que quer apenas investigar os efeitos e não propriamente as causas. E, por conta disso, já dizia Platão, século V a.C., através de Sócrates: “Zalmoxis, rei da Trácia, atesta, na qualidade de Deus, que, assim como não se deve empreender curar os olhos sem haver curado a cabeça, não se deve igualmente fazê-lo para a cabeça sem se ocupar do corpo, de igual modo não se deve mais esforçar-se por curar o corpo sem se esforçar por curar a alma; mas que, se a maior parte das doenças escapam à arte dos médicos da Grécia, a causa disso é que eles desconhecem o todo de que é preciso cuidar, este todo sem o bom comportamento do qual é impossível que se comporte bem a parte. É na alma, com efeito, dizia meu Trácio, que para o corpo e para todo o homem, os males e os bens têm seu ponto de partida; é daí que eles emanam, como emanam da cabeça os que se relacionam à vista; é por conseguinte a esses males e a esses bens da alma que devem se dirigir nossos primeiros cuidados e nossos cuidados principais, se queremos que se comportem como é preciso as funções da cabeça e as do resto do corpo. Ora, dizia ele, é pelas encantações, bem-aventurado amigo, que se cuide a alma; essas encantações são os discursos que contêm belos pensamentos; ora, os discursos que são de tal sorte fazem nascer na alma sabedoria moral, cuja aparição e a presença permitem doravante causar facilmente a boa saúde na cabeça como no resto do corpo. Ora, ensinando-me tudo, com o remédio, as encantações, ele me dizia para não me deixar persuadir por ninguém de lhe cuidar a cabeça, sem que me tivesse entregue antes sua alma para ser cuidada por mim por meio da encantação! Acrescentava ele que era, relativamente às pessoas, o erro hoje de alguns médicos pretenderem ser médicos de uma das duas à parte da outra, e me recomendava com uma extrema insistência de não me deixar por ninguém, tão rico, tão nobre, ou tão belo fosse, persuadir de agir de uma outra maneira.”, Cármides,157 a-b.

Que lutemos, portanto, não somente em direção da construção de um sujeito autoafirmativo e imbuído de autoconhecimento, mas também em direção de um crescimento que parta do interior para o exterior….

iHá de se observar, por exemplo, a influência das fases da Lua sobre o ser humano.

iiA força da doutrinação religiosa sobrepuja, muitas vezes, as ações espontâneas do homem.


terça-feira, 12 de maio de 2020

O CACHORRO CORRENDO EM CÍRCULO NA TENTATIVA DE PEGAR O PRÓPRIO

Syro Cabral de Oliveira


Em nossa atualidade, os profissionais da ciência médica agem semelhantemente a policiais versus bandidos. Os bandidos saem na vanguarda, inovando a arte da malandragem, ao passo que a polícia se mantém na retaguarda, explicando as ações dos bandidos. Do mesmo modo é a ação de nossos especialistas da medicina. Aparece um novo vírus, causa estrago enorme, os cientistas da saúde descobrem uma vacina depois de todos os acontecimentos. Vem uma nova onda de vírus, aquela vacina se encontra em estado de démodé. Isso faz-nos lembrar também o comportamento dos profetas da economia, isto é, os economistasi. Fazem mil previsões das tendências do mercado financeiro e acertam duas ou três e ainda depois dizem: “Prevemos isso há três meses”, mas esquecem de mencionar que acertaram duas ou três em mil previsões.

Por que isso se dá? Porque esses especialistas querem aprisionar os conhecimentos, agir a partir de rigorosos métodos de investigação, em torno da natureza humana, e acabam produzindo sob pressão do rigor da necessidade, ao passo que, no caso dos bandidos, tudo se dá ao acaso e idem para os vírus. Se esses agentes da ciência médica voltassem suas pesquisas para encontrar um método que procurasse dar conta do que ocorre na atualidade dos eventos, que implicam doenças nos seres humanos, possivelmente, resolveriam os problemas, em torno das novas doenças, com maior rapidez. Mas isso se torna difícil, pois implica uma nova postura, um novo olhar, através de ângulos diferentes, diante da realidade do universo em questão. Mas, infelizmente, fechados em seus métodos de previsões certas, tornam-se absolutamente vesgos, porque se habituaram a ver o seu universo através de uma lente pigmentada, em vez de procurarem uma lente incolor. Ora, os nossos olhos conseguem ver todas as cores, porque, justamente, o nosso nervo óptico é incolor. Como as ciências não querem questionar os seus próprios métodos, passam a se comportar como os cachorros que, na tentativa de pegar o seu próprio rabo, ficam correndo em círculo.

A Ciência, tal como se coloca hoje em dia, cheia de pretensões, não permite um modo de pensar mais amplo. Não precisa buscar nada, pois ela é a autoridade máxima, um verdadeiro dogmatismo deliberado. Qualquer absurdo que se diga em nome dela não se pode questionar ou tentar contestar. Diante de uma tentativa de contestação, ouve-se imediatamente: “Mas isso tem fundamentação científica”. Não se percebeu ainda que as verdades científicas são provisórias. São verdades até quando não se prove o contrário.

No início, quando se descobriu o antibiótico – a penicilina – pensou-se que tinha descoberto o remédio para todos os males, ou seja, a verdadeira panaceia. Quando falhou em alguns pacientes, afirmaram que as bactérias tinham ganhado resistência. Aumentaram a dose e mataram o paciente também.

Tudo mudou com a teoria dos mutantes. Essa teoria permitiu-lhes um olhar mais amplo acerca dos problemas relacionados à saúde. A partir daí, procuraram descobrir outros antibióticos. E assim as coisas vão avançando. O que permite o avanço no campo dos conhecimentos é justamente o debate e os questionamentos.

A arrogância se tornou uma prática a tudo que está ligado à Ciência. A Academia possui toda a virtude da arrogância. Ela é o verdadeiro leito de procusto. E o pior de tudo é que a Imprensa e a Academia, instituições que têm por pretensão modelar as opiniões, ironicamente, não falam por conta própria. A Imprensa diz sempre segundo fulano, beltrano etc. A Academia, por seu turno, usa citações. Ambas não falam por conta própria, porque querem fugir, a todo custo, da responsabilidade. Nem uma nem outra quer responder pelos seus próprios atos.

Nenhum cientista pode se arriscar a falar por conta própria. Qualquer uma de suas publicações tem que ter o aval da chamada comunidade científica. Assim, o cientista pode dizer qualquer besteira, mas se foi publicada em uma revista científica, ninguém pode contestar.

Resolver o problema da pandemia do coronavírus através de isolamento total das pessoas, ao que nos parece, é reconhecer totalmente a incapacidade de se lidar com tal problema. Não deixa de ser uma demonstração da carência de conhecimentos científicos. Pois, uma proposta de solução dessa natureza não depende necessariamente de nenhum conhecimento científico.

Uma atitude dessa natureza faz-nos lembrar da ação do presidente da Petrobras, no governo Temer, para resolver a crise financeira pela qual a referida empresa estava mergulhada. Simplesmente, o nosso brilhante presidente associou o reajuste do petróleo e seus derivados, tais como os combustíveis, à variação do dólar, como se tivesse feito uma grande descoberta e uma excelente administração. Ora, olhar para dentro de si mesmo e somente ao seu redor, sem antevê as consequências de suas ações é revelar a maior de todas as ignorâncias. É como um físico que projeta uma bomba de alto poder de destruição, abrangendo um raio de dezenas de quilômetros de distância, sem levar em consideração que há milhares de seres humanos naquela área.

Obviamente, que não é o papel do cientista prevê as consequências danosas do seu feito, ou melhor, da sua obra-prima, pois trata-se de uma espécie de técnico e como tal, sua obrigação é unicamente de fazer seu artefato funcionar cem por cento. A decisão de prevê as consequências da ação do artefato desenvolvido pelo nosso majestoso cientista cabe ao governante, figura que deveria visar o bem comum.

Implorar pelo isolamento social é o mesmo que abrir mão simplesmente de sua prerrogativa ou competência essencial, que é a de avançar o máximo possível e incessantemente em direção da descoberta do que é próprio para a cura do doente, visto que a Medicina, como arte, não tem por objetivo propriamente curar o paciente, mas tão-somente procurar discernir os meios próprios para sua cura. Além disso, pensamos também que não é próprio da Medicina aconselhar o paciente a fugir da doença. Este último papel deveria ser reservado a uma outra arte. É como que um pseudo-mestre de artes marciais, em sua total incompetência, tentasse ensinar frequentemente aos seus alunos a maneira de como fugirem do adversário, quando se encontram na iminência de uma fragorosa derrota, em vez de prepará-los para desferirem golpes inusitados diante de um adversário terrível. A menos que o isolamento social proposto seja uma estratégia das economias desenvolvidas, para arruinar ainda mais as economias dos países em desenvolvimento, deixando claro que a Ciência, que deveria caminhar em direção da descoberta dos meios possíveis de curar o doente, tornou-se submissa a interesses escusos.

Quando as áreas específicas saem de seu domínio próprio e sugerem medidas, que são inerentes a outro âmbito do conhecimento para solucionar um problema, torna-se evidente o reconhecimento do seu próprio fracasso e assim assinando a sua incompetência no seu campo de investigação.

Se fôssemos verdadeiros mestres das artes marciais, jamais deveríamos treinar os nossos alunos a debandarem-se diante de uma derrota iminente, mas sempre deveríamos prepará-los para saídas inesperadas, que surpreendam o nosso adversário. Tentarmos descobrir meios de vencer o adversário depois da derrota é  o mesmo que querermos lutar por um consolo e satisfazermos o nosso próprio ego. Ora, isso não é, em hipótese alguma, um princípio de grandeza.

Quando uma Ciência se mostra totalmente incompetente em seu próprio domínio, coisa que Aristóteles, o pai das ciências, certamente não queria, não deixa de nos preocupar muito, pois, evidencia a autoridade da Academia, ou melhor, pseudoautoridade, na medida em que esta mesma Academia arroga para si mesma uma autoridade desassociada da realidade.

É preciso, no entanto, que as pessoas abandonem o hábito de ler apenas aquilo que os doutores escrevem ou indicam. Devemos nos tornar autônomos, sujeitos autoafirmativos e procurarmos trilhar os nossos próprios caminhos.

Há pessoas que confundem avanço da Medicina com o auxílio da tecnologia. Pensam elas que uma cirurgia realizada por meio de videolaparoscopia seria um avanço da ciência médica. É um ledo engano. O médico que domina esta técnica, com orgulho, não deixa de ser um serviçal da tecnologia. Um serviçal da indústria produtora desses aparelhos.

Essa turma que escolhe o curso de medicina, ultimamente, em sua maioria, parece-nos, que vai em busca apenas de um cheque em branco, ou seja, em busca de riqueza, porque bem sabe ela que a doença é uma constância no ser humano, sobretudo, em sociedades de alto nível de ignorância. A saúde está diretamente relacionada aos bons hábitos de vida e, evidentemente, a uma boa alimentação. Como as indústrias, ligadas ao ramo da alimentação, estão ávidas por lucros incomensuráveis, procuram, através de pesquisas, meios para aguçar o prazer de comer, principalmente, alimentos que pouco ou nada contribuem para uma vida saudável. Nessa esteira, vêm junto os pesquisadores de alimentos que causam determinadas doenças, com a finalidade de estimular seu consumo, visando altos lucros, por meio de comissões, através da venda de remédios. Criam-se as doenças e simultaneamente o remédio.

É possível que algumas pessoas vão compreender isso, que estamos colocando aqui, somente quando tiverem algum de seus membros da família sendo vítima de uma medicina claudicante, uma medicina que não se envergonha de defender os interesses de grandes grupos financeiros e donos de laboratórios.

iTrata-se de áreas do conhecimento relacionadas ao ser humano; logo, é impossível fazer previsão com rigor matemático.


terça-feira, 28 de abril de 2020

À CAÇA DE RESPONSÁVEIS PARA ENCOBRIR INTERESSES ESCUSOS


Syro Cabral de Oliveira

A nossa intenção, a princípio, foi em dar uma nota de rodapé acerca do termo discurso original, que frequentemente mencionamos em nossos textos, mas logo em seguida mudamos de ideia e preferimos escrever um texto em vez de continuarmos com a primeira decisão.

Quando falamos de discurso primário ou original queremos, com efeito, nos referir acerca das ondas de discursos que partem de uma fonte única e inteiramente desconhecida, que tomam conta do espaço, no noticiário, dos veículos de comunicação de massa, por um bom período de tempo.

No momento vigente, estamos presenciando um discurso cujo fundo é o tema saúde. Na sua vanguarda, aparecem personagens que têm por objetivo exclusivo de proliferá-lo e disseminá-lo a exaustão. Alguns desses personagens não são tão abrangentes, universais, tal como o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde – OMS –, Tedros Adhanom Ghebreyesus. Há outros ainda que são estritamente de caráter local, como figuras do tipo do ex-ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, que se comunica diretamente com as massas de sua própria língua.

Essas ondas de discursos são temporárias e sazonais e nem poderiam ter duração muito longa, porque se desgastariam e logo perderiam sua credibilidade. Seu objetivo é causar impacto, muito barulho e confundir a opinião das pessoas de um modo geral e desviar sua atenção dos problemas maiores. Têm que ser rápido, pois, do contrário, as pessoas perceberiam seus truques e suas verdadeiras intenções.

Não vai tardar muito, ao aproximar-se o período da estiagem e, em seguida, o das queimadas – incêndios florestais –, os referidos veículos de comunicação retomarão o discurso paranoico dos ecologistas de plantão. Assim, essas ondas de discursos vão se revezando, sem que as pessoas sequer percebam que há grandes interesses bem determinados por trás das fontes poderosas do capital internacional, que financiam e contornam o modo de pensar das pessoas.
Secas, tsunamis, chuvas torrenciais, furacões, vulcões são fenômenos da natureza, que ocorrem periodicamente e que, no passado, eram considerados divindades, devido a sua força incontrolável pelo homem. Entretanto, não há nenhum esforço, por parte dos governantes, que objetive esclarecer e conscientizar as pessoas, através de uma boa educação, acerca da natureza desses fenômenos e também das suas periodicidades. O que se objetiva mesmo é eleger responsáveis pelos danos causados por tais fenômenos, como se a causa das secas, por exemplo, fosse, de fato, o desmatamento.

Na Idade Moderna, com o avanço das ciências, o homem passou a pensar que o objetivo da Ciência era o de dominar a natureza. No entanto, mesmo diante do grande poder científico e financeiro dos Estados Unidos da América do Norte e do Japão, estes países não conseguem dominar os furacões e tsunamis, respectivamente.

Ocultamente, os representantes do grande capital financeiro internacional, nos bastidores, se articulam e financiam propagadores dos acontecimentos naturais e não naturais que ocorrem periodicamente – tais como pandemias, secas, furacões, ameaças de guerras etc. – e incitam-nos a dar-lhes uma dimensão descomunal, causando apreensão, insegurança, temor, angústia nas pessoas, com o único intuito de desviar a atenção dos telespectadores e, silenciosamente, realizarem seus mirabolantes projetos, sem que as populações mundiais deem conta das suas verdadeiras intenções. Assim sendo, eles vão se firmando e fortalecendo sua hegemonia no âmbito mundial, tal como a da China da atualidade e a de todos os gigantes da informática e dos fabricantes de equipamentos eletrônicos. Nesse sentido, recrutam pessoas certas para os lugares certos, sempre usando de dissimulação para dar um ar de que tudo ocorreu naturalmente. O atual diretor-geral da OMS se apresenta como uma figura central e possuidora de grande autoridade a respeito dos assuntos relacionados à saúde. Para tanto, ele se apoia no discurso científico. Discurso este que se tornou inquestionável, pois as ciências são a autoridade máxima, a deusa e, obviamente, o que uma deusa dita, não se pode questionar, como já fizemos referência em nosso texto Pseudo princípio de autoridade e complexo de rotulação.

A partir do discurso do Ghebreyesus, vários outros discursos são disseminados e propagados em alta velocidade. Entretanto, essas pessoas, que são escolhidas para fazer parte dessa cadeia de discursos, não estão ali por acaso. Elas se encontram ali, porque, de certo modo, possuem um talento especial para tal. Mesmo falando em inglês e poucas pessoas entendendo a fala do diretor-geral da OMS, a maioria das pessoas sente prazer em ouvi-lo, simplesmente, porque seu discurso é musical e causa prazer aos ouvidos e apazígua a alma. Dessa forma, também, é o que passa com o senhor Mandetta. Seu objetivo maior, fica claro pelo seu tom de voz, é mesmo surfar na crista das ondas dos discursos. Assim sendo, seu discurso é vazio de conteúdo, mas é inteiramente estribado na retórica e, além disso, é inebriante, altamente musical e aveludado, sem nenhum objetivo definido.

O discurso retórico, em si, não precisa ter conteúdo, basta ser agradável. É como uma letra de uma determinada música, que consiste apenas em uma única frase, mas, mesmo assim, quando cantada, seduz inteiramente seus ouvintes.

Existe para cada pessoa um dom especial. Não adianta tentar-se ser cantor sem que existam, de antemão, qualidades que proporcionem a realização de tal tentativa. Na fábula A lamentação do pavão, um pavão lamentou-se a deusa Hera por não possuir uma voz tão suave como a do rouxinol, dizendo que “seus gritos causam horror a toda gente”. Hera disse que o rouxinol tem sua bela voz, mas que o pavão possui beleza e majestade. Entretanto, o pavão replicou, dizendo “de que serve a minha beleza, se outro pássaro tem uma voz mais bela?” Hera “mandou o pavão embora, dizendo-lhe que cada criatura recebeu um talento especial. Tu recebeste a beleza, a águia tem força, o rouxinol tem uma voz melodiosa, o papagaio fala e a pomba tem sua inocência. Cada um tem de contentar-se com as suas qualidades e, se não queres continuar a sentir-te infeliz, é o que tens de fazer.”

É preciso que as pessoas aprendam a valorizar-se a si mesmas, pois, do contrário, levarão uma vida sem sentido, sem perspectiva e inteiramente melancólica, vagando, por esse mundo afora, sem rumo. Desde cedo, devemos procurar nos conhecer e nos vermos, através de uma espécie de espelho, quem somos e procurarmos descobrir quais são os nossos verdadeiros talentos. Esses homens, que falam com desenvoltura e arrebanham grandes multidões, não têm em vista, normalmente, o bem alheio, mas, quase sempre, eles procuram preencher o vazio do seu ego. Eles investem, desde uma tenra idade, nas tendências que se afloram em seu agir quotidiano. A frase socrática “Conhece-te a ti mesmo”, parece-nos muito pertinente em relação a esse contexto. Assim, para que se represente um papel de um ato de loucura, com o máximo de realismo, no teatro, não há nada mais acertado do que contratar um ator que se manifeste tendências à loucura. Não devemos jamais ser fingidos, mas sempre devemos ser realmente o que somos. A nossa espontaneidade é, certamente, uma virtude.

É preciso que não percamos tempo com coisas fúteis e alheias a nós. Há pessoas que perdem mais tempo, em toda sua vida, em preocupar-se com a vida das outras pessoas do que se ocupar propriamente consigo mesmas. É como diz Cioran, em seu livrinho História e utopia, “Detestamos aqueles que 'escolheram' viver na mesma época que nós, que correm a nosso lado, que entravam nossos passos ou nos deixam para trás. Em termos mais claros: todo contemporâneo é odioso. Conformamo-nos com a superioridade de um morto, jamais com a de um vivo, cuja simples existência constitui para nós uma censura e uma acusação, um convite às vertigens da modéstia. Que tantos semelhantes nos ultrapassem é uma evidência intolerável que esquivamos nos arrogando, por uma astúcia instintiva ou desesperada, todos os talentos e atribuindo-nos a vantagem de ser únicos. Sufocamos perto de nossos êmulos ou nossos modelos: que alívio diante de suas tumbas! O próprio discípulo só respira e se emancipa com a morte do mestre. Todos nós, enquanto existimos, invocamos com nossos desejos a ruína daqueles que nos eclipsam com seus dons, com seus trabalhos ou com suas façanhas, e esperamos ansiosamente, com avidez, seus últimos momentos. Alguém se eleva, em nosso setor, acima de nós e é razão suficiente para que desejamos nos ver livres dele: como perdoar-lhe a admiração que nos inspira, o culto secreto e doloroso que lhe consagramos? Que desapareça, que se afaste, que morra enfim, para que possamos venerá-lo sem dilaceramento, sem amargor, para que cesse nosso martírio!”

Para cada pessoa, há um papel específico e bem definido. E é isso que os mandatários procuram ver em cada pessoa que vai ser designada para ocupar um determinado cargo. O diretor-geral da OMS não ocupa esse cargo por acaso. Ele apresenta, de antemão, as qualidades certas para ser o porta-voz de um discurso totalmente bem elaborado por um grupo, que poderíamos dizer assim que, ocultamente, governa o mundo. Os âncoras, jornalistas, repórteres etc. são seus porta-vozes. Ou seja, são os profissionais, cheios de vaidade, que inflam o peito – à semelhança das Musas, exortadas pelo grande Zeus, imbuído de poder e portador da égide, a exaltarem as glórias dos deuses –, proliferam e disseminam as ideias que interessam ao grupo do capital dominante. Platão, no Íon, 533d, apresenta também semelhante ideia, através da pedra magnética. Pedra esta que “não somente atrai os anéis de ferro, mas lhes comunica a virtude de produzir o mesmo efeito e atrair outros anéis, de sorte que se vê algumas vezes uma longa cadeia de pedaços de ferro e de anéis suspensos uns aos outros, que todos tomam emprestado sua virtude desta pedra. De igual modo, a Musa, por si mesma, inspira o poeta, este comunica aos outros a inspiração e se forma uma cadeia inspirada”, que segue a seguinte ordem: Musas inspiradoras inspiram o poeta, que inspira o ator, que inspira o espectador.

A vida é um verdadeiro teatro. Brasília, a Casa Branca, nos Estados Unidos da América do Norte, a Casa Rosada, na Argentina etc., por exemplo, são o palco. Os políticos, eleitos pelo povo, são os atores. O povo, em sua totalidade, é o espectador. Os deputados, os senadores, os ministros e os presidentes das Repúblicas se contracenam diariamente entre si. Muitas vezes, se fingem de opositores, mas nos bastidores estão todos unidos, entre afagos e gargalhadas, ao comentarem as suas façanhas ao longo de cada dia.

Muitas vezes, é no momento de um barulho intenso que o nosso sono, ironicamente, se torna pesado e letárgico. Porém, ao despertarmo-nos já é tarde demais, embora tivéssemos sido advertidos, por meio de alguns presságios, do perigo que estava a caminho.

É de ter-se em mente a ideia de que as coisas costumam ganhar proporção e contornos bem definidos rapidamente, de modo a não nos mais permitir que impeçamos a sua evolução. E é quase sempre assim mesmo: enquanto uma maioria dorme sossegada e profundamente, há uma minoria de pessoas trabalhando, sem cessar, silenciosamente. É nesse ínterim que somos engolidos pelas ondas gigantes, que tomam todo o espaço da praia, antes mesmo que pudéssemos delas nos proteger em tempo hábil.

Assim sendo, rogaríamos às pessoas a não perderem tempo em momento algum, sobretudo nesses momentos de crises cruciais, mas a trabalharem com muito afinco, desconfiando de quase tudo, e em especial, das cantilenas que nos chegam através de vozes suaves e muito agradáveis, pois, haveremos de convir que muitas Musas inspiradoras haverá ainda de vir.

quarta-feira, 22 de abril de 2020

ERA DA MENTE ESCRAVA


Syro Cabral de Oliveira

A vaidade, a busca de um vazio incessante, tem levado as pessoas atualmente a perseguirem um progresso ilusório, um modelo de vida de uma complexidade sem paralelo, que, possivelmente, jamais foi visto até então, em relação à natureza humana. As sociedades deixaram-se enganar rapidamente por falsas promessas de um mundo melhor e de um bem-estar que, provavelmente, largarão para trás um custo que talvez jamais se tenha visto em toda a história da humanidade.

                         É possível que a crise pela qual o mundo está atualmente vivendo deixará feridas expostas jamais presenciadas. Isto porque as pessoas deixaram, sem se perceberem, se seduzir por um discurso sorrateiro, traiçoeiro, sub-reptício, enganador, fantasioso, cheio de encanto e truques dos mais bem elaborados de todas as épocas, que tem por objetivo último modelar o modo de pensar das pessoas nos tempos atuais. Pois é notório que tal discurso invade nossos lares, todos os dias, devagarinho e silenciosamente, com o nosso próprio consentimento, e vai se alojando em nossas mentes, a conta-gotas, à semelhança das doses homeopáticas, construindo em nós um modo de pensar totalmente uniforme. Não é que ele seja excelente por si mesmo, mas porque ele nos chega dentro de uma embalagem eletrônica, mesclado de mistérios, e que, de certa forma, é compartilhado facilmente entre todos os usuários das redes sociais e também disseminado simultaneamente, através de todos os veículos de comunicação de massa. Além desse compartilhamento direto, esse discurso nos chega permeado de um pragmatismo altamente sedutor, de modo que, nunca é demais acrescentar que o modelo atual de educação, voltado para uma formação totalmente pragmática, tem por objetivo preparar o terreno para a sua penetração em todos os segmentos das sociedades. Pois sabe-se, evidentemente, que foi deixada inteiramente de lado uma educação que teria por objetivo último primar para uma real formação do ser humano. Uma formação que permita ao homem a se conhecer a si mesmo e o mundo que o rodeia. Uma formação que permita de fato ao homem se defender das cantilenas persuasivas e altamente sedutoras.

                         Nesse aspecto, o homem de hoje tornou-se um animal indefeso, vulnerável facilmente a determinadas ideologias e sujeito a toda uma construção meramente artificial, que visa, acima de tudo, a atingir alvos predefinidos pelo pensamento dominante.

                         As consequências dessa pandemia do coronavírus, certamente, serão incomensuráveis diante das estruturas ideológicas que o mundo está atualmente submetido. Ou seja, o mundo tornou-se prisioneiro de um modelo de capital que visa apenas o aqui e o agora, sem levar em consideração, propriamente dito, a presença dos seres humanos que contracenam nesse cenário capitalista. Além disso, o modelo econômico vigente, mesclado com o poder político e seus interesses escusos, que subjazem em suas profundezas enigmáticas, naturalmente, vai deixar um ponto de interrogação para todos os acontecimentos que estão se dando em nossa atualidade.

                         É possível que alguém diga, perante uma afirmação dessa natureza, em tom de ironia, o seguinte: “Oh, você está sendo um tanto pessimista!” E, logo em seguida pondera e afirma que as pandemias não são um caso novo. “Elas existem desde os primórdios da humanidade. Vejamos alguns exemplos recentes que se acham historicamente registrados. Peste Bubônica, século XIV; Peste de Marselha, século XVIII; Gripe do Frango e AIDS, século XX etc.”

                        Esses exemplos não deixam de ser uma pura verdade e são incontestáveis. Ninguém negaria esses fatos. O que muitas pessoas não veem e nem percebem são as circunstâncias que o mundo se encontra quando as pandemias ocorrem. As consequências das crises naturalmente são muito diferentes umas das outras em relação ao contexto do momento em que elas se dão.

                        Vejamos, então: o homem do século XXI tornou-se inteiramente dependente das tecnologias, das chamadas descobertas científicas, dos meios de produção agrícolas concentrados nas mãos de poucos produtores etc. Ou melhor: o homem do século XXI não se preocupou em buscar sua independência, sua liberdade, numa palavra, se libertar da escravidão. Pelo contrário, ele contribuiu e muito para o avanço de sua própria escravidão, quando procurou caminhar somente em direção da busca incessante dos confortos físicos, das facilidades oferecidas pelas tecnologias, em todos os sentidos. Ele não procurou se atentar que suas ações, embora inconscientes, só serviram para dar um grande impulso para a concentração da produção de alimentos e de todos os bens necessários à sua própria subsistência nas mãos de pequenos grupos poderosos e detentores dos instrumentos de produção, seja nos campos, seja em todos os domínios industriais. O homem comum, assalariado, tornou-se, por seu turno, um ser dependente dessa cadeia produtiva de bens de consumo, em nome de confortos e prazeres desenfreados e, também, de uma comodidade paradisíaca, sem atentar para as coisas mais simples que nos são absolutamente indispensáveis à nossa subsistência. Ele não foi capaz de perceber que todos esses confortos, construídos atualmente, não deixam de ser, em sua maior parte, um instrumento de domínio, através da dependência. Pois sabe-se que, com toda clareza, que a estimulação de desejos de consumo é uma das maiores ferramentas que proporcionam o domínio humano.

                        Seus hábitos de vida, quer de como comportar-se no dia a dia, de alimentar-se, de vestir-se etc. foram sub-repticiamente mudados. Criaram-se vícios de paladares, de modo a fazer com que as pessoas apeteçam alguns alimentos e rejeitem outros. De sorte que é possível que uma pessoa, hoje em dia, morra de fome, ainda que haja alimentos em abundância em sua própria casa. Em um diálogo entre Sócrates e o sofista Antífon – Xenofonte –, este último “supunha que a filosofia necessariamente aumentasse a felicidade de cada um” e, logo um pouco adiante acrescenta, que os frutos que Sócrates tem dela colhido “são aparentemente muito diferentes.” “Por exemplo – diz ele –. estás vivendo uma existência que levaria até um escravo a abandonar seu senhor. O que comes e bebes é o que há de mais pobre; o manto que usas, além de precário, jamais é trocado, no verão ou no inverno; por outro lado, sempre andas descalço e sem túnica. Além disso, te recusas a receber dinheiro, cuja mera obtenção já constitui uma alegria, ao passo que o ter torna a pessoa que o possui mais independente e feliz…”

                        Entre outras coisas, Sócrates replicou o sofista da seguinte maneira:

                        (…) “em caso dos amigos ou do Estado necessitar de ajuda, quem disporá de mais folga para atender às suas necessidades? Aquele que vive como vivo agora ou aquele cuja vida classificas como feliz? Quem considerará servir como soldado tarefa mais fácil? Quem não é capaz de sobreviver sem alimento caro ou quem se contenta com o que pode obter? Quem, ao ser sitiado, será o primeiro a se render? Aquele que deseja o que é de difícil aquisição ou aquele que é capaz de se arranjar com qualquer coisa que esteja disponível?”

                        “Parece, Antífon, que imaginas que a felicidade consiste de luxo e extravagância. Acredito, contudo, que é divino não ter necessidades; tê-las o mínimo possível aproxima-se do divino. E como aquilo que é divino é o mais excelente, aquilo que mais se aproxima de sua natureza, está mais próximo do mais excelente.”

                        Diante do exposto acima, convocaríamos as pessoas a se unirem em torno de si mesmas e procurassem fazer uma séria reflexão acerca do sentido da vida e de todas as coisas que se encontram ao seu redor. Procurassem também, ao mesmo tempo, questionar a si mesmas sobre as coisas que as afetam e que, além disso, fossem diretamente ao ponto crucial que nos interessa, ou seja, que questionassem se o mundo é ruim em si mesmo, ou, na verdade, é um produto, ou, em última análise, uma construção de nossas ações emanadas dos nossos pensamentos.

                        Se concluirmos que o mundo é um produto de nossas próprias ações, concluiríamos simultaneamente também que o mal não está nas coisas fora de nós, mas que o mal é um produto de nossos pensamentos e consequentemente de nossas ações. Logo, o mundo é um resultado do que pensamos e fazemos.

                        Então, somos escravos, na verdade, não em virtude das coisas que advêm do exterior, mas, na realidade, porque permitimos que alguém nos escravize. E a pior escravidão de todas as escravidões é a escravidão mental.

terça-feira, 14 de abril de 2020

À NATUREZA HUMANA NÃO CABE O RIGOR MATEMÁTICO


Syro Cabral de Oliveira

Em entrevista ao Fantástico, TV Globo, domingo, 12 de abril de 2020, o ex-deputado federal eleito pelo Mato Grosso do Sul e atual ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, citou o Mito da Caverna, de Platão, dizendo que “é pela ciência que se sai da caverna da ignorância.” Em relação a essa entrevista, circula um texto, sem autor, nas redes sociais, em especial, no WhatsApp, que achamos pertinente citar um trecho do mesmo aqui e fazermos as nossas ponderações. Eis abaixo o excerto do referido texto:

Então, para sair verdadeiramente para fora da caverna, é preciso essa prova ética de autenticidade pondo-se frente a frente a si mesmo, adequando discurso e prática. Pois há aqueles que conseguem chegar apenas ao limiar e retornam, pois entre mudar a si mesmos ou continuar enganando os outros, eles preferem tirar proveito do rebanho e retornam à caverna para ser os pastores e tiranos dos acorrentados que ignoram que estão presos. Estes que não têm autenticidade e ética Platão os chama de “sábios da caverna”, que se aproveitam da servidão e posam de sábios e chefes, quando na verdade são tiranos. Para Platão, a luz científica é capaz de conduzir apenas à boca da caverna. Pois para sair realmente da caverna, é preciso a luz ética. E o mais importante: quem sai, vence a si mesmo primeiro e vê como é o mundo que existe fora da caverna, porém não se contenta em ficar contemplando tal “verdade” apenas para si mesmo. Pois a razão de ser dessa luz que existe fora da caverna é fortalecer quem a conhece e se autoconhece a partir dela, adquirindo assim força existencial e pedagógica para retornar à caverna para ajudar a libertar quem ainda continua preso nela enfrentando os tiranos do corpo e da alma."

Esta passagem do texto parece-nos bastante oportuna para ilustrar o momento atual, sobretudo, quando se levam em consideração os discursos de cunho inteiramente persuasivos, que, possivelmente, têm por finalidade última levar às pessoas ao temor, à insegurança e à dúvida.

Não se deve certamente tratar o ser humano a partir de um rigor matemático. Dizer que as pessoas são infectadas, segundo uma progressão geométrica, é de uma tamanha leviandade, falta de idoneidade e respeito para com o ser humano, que até chega nos colocar em dúvida acerca da autoridade de certos profissionais, sobretudo, quando se trata de quem se especializou e atua no âmbito da saúde.

É preciso entender, no entanto, que não há ciência acerca do ser humano em sentindo absoluto, ou seja, não há conhecimento, em definitivo, que explique a natureza última do ser humana em sua inteireza. Sabemos que há pessoas, mesmo que se encontrem entre doentes, que não se infectam. É sabido também que já se introduziram células cancerígenas em determinados indivíduos saudáveis, a fim de experimentos, sem que se obtivessem resultados positivos.

O ser humano é imprevisível em todos os campos do conhecimento, quer que seja no âmbito da saúde, no do mercado financeiro, no dos estudos sociológicos etc.

Sabemos que muitas pessoas que já foram desenganadas pelos médicos, com previsão de vinte a trinta dias de vida, viveram, no entanto, entre quinze, vinte anos ou até mais, após a funesta profecia.

Não há ninguém, até hoje, que tenha uma explicação absolutamente plausível para a queda vertiginosa ou a subida íngreme e constante da bolsa de valores em um determinado dia.

Do mesmo modo, também, verificamos que muitas pesquisas eleitorais são, muitas vezes, um verdadeiro fiasco em relação aos resultados apresentados nas urnas.

Tudo que envolva o ser humano é inteiramente imprevisível. Tentar fazer previsão e explicar, com rigor matemático, os casos relacionados aos seres humanos é naturalmente uma falta de honestidade sem precedentes. Ou seja, tentar associar as pesquisas científicas  frias, desenvolvidas no interior de laboratórios, de indivíduos particulares, fundadas em rigorosos métodos científicos, a verdades absolutas e, ao mesmo tempo, aplicá-las, de maneira generalizada, a totalidade do universo dos indivíduos é, certamente, um verdadeiro embuste “científico”, com o intuito naturalmente de conduzir o grande rebanho ao bel-prazer. E, nesse caso, não deixaria de ser um truque de má-fé, como explicita a citação do excerto acima descrito. “Pois há aqueles que conseguem chegar apenas ao limiar (da caverna) e retornam, pois entre mudar a si mesmos ou continuar enganando os outros, eles preferem tirar proveito do rebanho e retornam à caverna para ser os pastores e tiranos dos acorrentados que ignoram que estão presos.”

Assim sendo, um cientista que vê o mundo a partir somente do ponto de vista de sua ciência é tão ignorante quanto aquela pessoa que não possui nenhum conhecimento científico.

Nesse sentido, o que importa mesmo é a amplitude de visão. Diríamos que as coisas se passam da seguinte maneira em relação a um homem que habita o topo de uma montanha em oposição a um outro que habita seu sopé. O primeiro enxerga ao longe, contemplando a infinitude do horizonte, ao passo que o último vê somente uma ínfima parte do horizonte, mas, mesmo assim, se supõe conhecer a totalidade de todas as coisas.