segunda-feira, 14 de outubro de 2024


DEUS É SIMPLESMENTE UM ENTE DE RAZÃO

                                                                                                   Syro Cabral de Oliveira

                        Quando afirmamos em nosso texto A magnitude e os atributos da divindade que Deus é pura inteligência ou razão não recorremos a nenhuma arbitrariedade ou qualquer petição de princípio para justificarmos tal tipo de asserção, uma vez que isso está exposto claramente em uma das obras caras da sustentação da fé cristã. O Evangelho segundo João inicia-se assim: 1 Ἐν ἀρχῇ ἦν λόγος, καὶ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁλόγος. 2 οὗτος ἦν ἐν ἀρχῇ πρὸς τὸν θεόν... “1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e Deus era o Verbo. 2 Ele estava no princípio com Deus...” O termo grego arché, que normalmente se traduz por princípio, necessita de alguns esclarecimentos. Assim, vejamos como ele pode ser entendido com maior clareza. Arché significa princípio não apenas no sentido de começo, de início no tempo, mas, rigorosamente, no sentido de fundamento, base, causa ou, como diz Platão, no Fedro, 245d, “princípio (ὰρχή) é alguma coisa de não engendrado, pois é forçosamente a partir de um princípio que vem à existência de tudo o que acontece, ao passo que um princípio não provém de nada. Se, com efeito, um princípio viesse a existir a partir de alguma coisa, não seria a partir de um princípio que viria a existir o que existe”. Ou seja, princípio (arché) é aquilo de que todas as coisas são derivadas, mas ele mesmo não pode ser derivado e nem deduzido de nada, pois, se assim não o fosse, haveria princípio do princípio e assim ad infinitum. É nesse sentido que se diz, acertadamente – quando se fala em remédio –, princípio ativo. Pois é justamente o princípio ativo que determina o que é tal ou tal remédio, ou seja, sua essência. É por isso que alguns genéricos não são tão eficazes quanto os remédios de marca, porque, muitas vezes, aqueles contêm uma menor porção do princípio ativo.

                         Outro termo grego, que merece aqui também a nossa inteira atenção, é o logos. Logos possui vários significados, entre tantos, os mais proeminentes são razão, inteligência, pensamento reflexivo, palavra etc., embora tenha-se optado por traduzi-lo, no referido Evangelho, por Verbo. Porém, isso pouco importa, contanto que se atente pelo seu sentido etimológico, já que os gregos antigos faziam dele uma verdadeira ferramenta. Ferramenta esta – se assim podemos chamá-lo – de uso constante, fazendo dela um verdadeiro guia para o bem agir. Como diz Heráclito de Éfeso, em um de seus fragmentos “o logos é comum a todos e governa todas as coisas”. Daí se conclui que o logos é a inteligência universal. E Parmênides de Eleia, praticamente no mesmo sentido, afirma que somente o logos é capaz de decidir contravertida tese, seguindo “um único caminho: o ser é”. Era, evidentemente, um uso abstrato do mais alto nível que se possa imaginar. Isso não oferece nenhuma dúvida a um verdadeiro amante da sabedoria. Isso, também, foi tão evidente que há quem diga que o filósofo grego Sócrates foi o precursor de Jesus de Nazaré ou de Belém – o Хριστός, o Ungido do Senhor – como muitos o têm.

                         Se até então, o logos possuía um caráter inteiramente abstrato, imaterial e universal, com o suposto nascimento de Jesus, ele perde esse caráter de universalidade para agora encarnar em um ser material, entrando assim em decadência. A divindade – a razão, como já dizíamos – materializou-se. É com toda justiça que alguns protestantes dizem que Jesus e Deus são uma única e mesma coisa. Porque, analisando todo o nosso percurso, se conclui claramente que Jesus é a razão encarnada. O que era no início de acesso a todos, tornou-se, metaforicamente falando, acessível apenas a algumas pessoas que se entregaram como seus seguidores.

                         Para que possamos deixar as coisas bem mais claras, é preciso, no entanto, que entendamos que há duas realidades bem distintas, mas, ao mesmo tempo, complementares. Uma realidade intramental e uma outra extramental. Assim podemos conceber a existência de todos os entes existentes tanto em uma realidade intramental e também em uma outra conhecida por extramental. O que importa para nós aqui é fazermos a clara distinção entre aquela realidade e esta. Se alguém nos perguntasse se acreditamos nos entes matemáticos, diríamos a esse inquiridor que essa questão está mal formulada. Deveria sim nos perguntar se os entes matemáticos existem. Neste caso, diríamos que sim, mas logo a seguir faríamos um certo esclarecimento. Os entes matemáticos existem, mas não empiricamente, ou seja, em uma realidade extramental, como uma rosa, uma fruta, uma pessoa etc., que se possa conhecer tangivelmente, isto é, que vemos, tocamos, algo que conhecemos pelos sentidos. Para nos tentar retorquir, diria o nosso crente: “Mas, eu estou vendo os números e as figuras geométricas grafados na lousa”. De pronto, perguntaríamos ao nosso crente se ele tem fome, caso ele nos responda positivamente, rapidamente tomaríamos de alguns instrumentos de pintura e pintaríamos uma fruta na lousa e perguntá-lo-íamos se ele comeria a fruta que foi pintada na lousa. Estamos certo de que ele diria que não, e, possivelmente, se justificaria dizendo que está vendo ali, na lousa é simplesmente um desenho ou uma representação de uma fruta; logo, não é uma fruta real, tangível. É tudo que precisaríamos de ouvir de o nosso bom crente. “Pois é”, diríamos nós, “os números que vós dissestes que estáveis vendo, na verdade, não são números reais e tangíveis, como vós concluístes acerca da fruta. Esses entes matemáticos que vós afirmastes que estáveis vendo são na realidade uma representação de um ente mental, que existe apenas em nossas mentes, do mesmo modo que existem mula sem-cabeça, saci Pererê, unicórnio, Deus e outros entes mentais. Se todos os homens morressem, esses entes também morreriam juntos com os homens, pois sua existência se dá simplesmente no âmbito do mundo intramental. Ou seja, são entes de razão.”

                         Mas, como nosso bom crente não se contenta com as justificativas racionais, ele afirma que partimos de uma premissa falsa para tentarmos chegar a uma suposta verdade. Entretanto, para provar a existência de Deus, ele lança mão da crença, ou seja, recorre a uma ideia não fundamentada com a intenção de fundamentar uma outra ideia. Seria o mesmo que se se quisesse construir um edifício sem que se tivesse que construir sua base.

                         Enveredar por meio de um caminho que leva a uma suposta verdade, simplesmente porque essa dita verdade aparece em um livro consagrado pela tradição e repetida incessantemente por uma suposta autoridade, seria naturalmente um absurdo sem precedente. A autoridade verdadeira não pode se dar de fora para dentro, arbitrariamente, mas, ao contrário, de dentro para fora. Não é o diploma que dignifica o sábio, mas, ao contrário, é o sábio que deve dignificar o diploma. O fato de um livro sagrado estabelecer que há um ser superior, criador de todas as coisas, sem que se demonstre a sua real existência, faz com que todo o sistema emanado dos princípios desse ser se torne absolutamente falso, sem consistência, fundado simplesmente em uma crença.

                         Não há uma concepção igualmente universal para todas as pessoas e todos os povos, como alguns crentes sustentam, acerca de Deus. Há povos que concebem Deus uno como um ente transcendente e que existe por si mesmo em uma instância separada, com todos os poderes, conhecimentos e universalmente presente em todos os lugares ao mesmo tempo, como o sol que ilumina uma região inteira simultaneamente ou um manto que cobre várias pessoas ao mesmo tempo; há povos que concebe Deuses imanentemente e convivendo entre os humanos, e há outros ainda que concebem Deus apenas como uma energia emanada dos próprios seres humanos, análogo ao perfume das rosas. Sem contar que há uma variedade enorme de formas diferentes para as divindades em relação aos povos, ao passo que o sentimento de imortalidade da alma se manifesta igualmente em todas as culturas, como já afirmamos em nosso texto Sentimento de imortalidade da  alma.

segunda-feira, 19 de agosto de 2024

 

CONHECER: UMA PREPARAÇÃO PARA UM NOVO OLHAR

Syro Cabral de Oliveira

 

            O ensino da filosofia na formação do homem ou, especificamente em nosso caso aqui, dos jovens e adultos, no ensino médio, objetiva-se, em um primeiro momento, fazer com que esses estudantes familiarizem-se com a filosofia e ao mesmo tempo desfazer a visão preconceituosa, já arraigada no senso comum, que associa essa área do saber a uma simples “viagem” ou talvez até mesmo a uma espécie de “embriaguez”, em seu sentido vulgar, e, por outro lado, mostrar que ela, a filosofia, é um saber muito importante para nortear a vida do ser humano em seu dia a dia. Assim, o saber filosófico tem por objetivo tornar o homem um senhor de si, um ser autônomo que saiba guiar-se a si mesmo, sem depender de um outro homem. Logo, o  saber filosófico tem por objetivo último libertar o homem de todas as amarras que o prendam no seu dia a dia, dos mitos e das crenças infundadas etc. Com isso, o homem vai perceber que não há nenhum saber já pronto e acabado, mas que, na realidade, todo saber está e estará sempre por se fazer.

           

            Tomar o mundo como algo dado, como algo já pronto e acabado seria, sem sombra de dúvida, tentar olhar para o mundo com um olhar do senso comum, ou como um prisioneiro de uma caverna. Ora, eis o objetivo maior da filosofia, ou seja, o de tentar romper com esse modelo que tem por finalidade única a de fazer com que  as pessoas tornem ingênuas e aceitem verdades prontas, sem que percebam que são verdades construídas, a partir de determinados pontos de vista, e logo impostas. Fazer com que o ser humano descarte as suas lentes pigmentadas é o nosso compromisso maior e é também a nossa grande missão.

 

            Por isso, devemos deixar bem claro que a filosofia não é uma doutrina, mas um tipo de saber neutro que tem por finalidade fazer com que o homem não projete os seus valores culturais sobre a realidade, mas tentar levá-lo a ver as coisas tais como elas são de fato. Assim, o homem que percebe essa verdadeira natureza da filosofia torna-se, muito rápido, um ser apaixonado, não por acaso, mas pela essência da etimologia da própria palavra filosofia, a qual foi cunhada  por Pitágoras de Samos – filósofo grego que nasceu em 580 e morreu em 500 anos a.C. – há alguns anos posteriores ao nascimento desse novo modo de pensar e de ver o mundo, inaugurado por Tales de Mileto (624-546 anos a.C.). Desse modo, o termo filosofia se compõe de duas partes: philos e sophia. Sendo que philos significa amor, amizade, amigo, e sophia, por sua vez, quer dizer sabedoria, dando assim, a partir da junção dos dois termos, o significado etimológico “amor pela sabedoria” e o filósofo sendo aquele que ama a sabedoria ou, ainda, o amigo ou o amante da sabedoria.

 

            Como o maior objetivo desde seu nascimento foi o de buscar uma explicação bem fundamentada para a totalidade do universo, o saber filosófico se distingue do saber religioso, visto que o primeiro está embasado na razão, isto é, em uma argumentação bem ordenada e que procura explicar a realidade de todas as coisas a partir de suas causas, seus princípios, apontando os porquês, fundamentando e demonstrando parte por parte de todas as suas etapas; ao passo que o saber religioso se prende a apenas em explicações baseadas em crenças e fé. Aqui, não há necessidade de justificativas, basta aceitar as explicações exatamente como são dadas ou narradas pelas chamadas autoridades do âmbito religioso.

 

            A filosofia não nasceu do acaso, pois é da essência humana o ato de filosofar, embora poucos percebam isso. Se fôssemos definir filosofia rapidamente, poderíamos dizer que ela é um grande questionamento. Ora, questionar é da natureza humana. A primeira coisa  que a criança faz, ao começar se relacionar com o mundo, é questionar seus pais e todas as pessoas que se encontram a sua volta. Assim, o homem, desde um passado muito longínquo, procurou a dar uma explicação para as suas angústias, seus conflitos, suas dúvidas, enfim para todas as coisas que o envolvem e também obter uma resposta para os seus questionamentos.

 

            O primeiro modelo de explicação da realidade foi baseado no mito, conhecido como modelo cosmogônico. O mito é uma narrativa que se baseia, não em explicação bem fundamentada e conceitual, mas em crenças, valores culturais e, principalmente, no sobrenatural. O mito não tem nenhum compromisso com a verdade, apenas procura explicar ou narrar todos os eventos, naturais ou não, sem qualquer justificativa ou fundamentação coerente. Esse modelo prevaleceu como o único modelo explicativo da realidade, na Grécia antiga, até, aproximadamente, no século VII a.C.

 

            A Grécia antiga era constituída de várias polis, ou seja, cidades-estados, mas era unida através de sua língua, cujos povos da magna Grécia dominavam bem. Seus valores culturais eram difundidos através dos seus poetas, tais como Homero, que viveu por volta do século X a.C. e Hesíodo, por volta do século VIII a.C., chamados aedos, cujas obras eram divulgadas através dos rapsodos –  espécie de repórteres itinerante da época – que declamavam os grandes feitos heroicos entre as pessoas do povo em todos os lugares daquele mundo antigo.

 

            Em virtude de o mito grego ter já em si uma certa coerência interna, por esta razão, ele já apontava para um elemento primordial – como bem mostra Hesíodo em sua magnífica obra A Teogonia,  através de suas narrativas de que todos os elementos da natureza originaram do Caos o qual, de um certo modo, facultou o surgimento da filosofia a partir do século VII a.C. A partir de então começa-se a romper com as explicações baseadas no mito e introduz-se um modelo de explicação baseado no logos (razão), cuja finalidade é explicar todas as coisas a partir de um elemento primordial. Inaugura-se então um modelo explicativo da realidade denominado de cosmológico. Abandonam-se as crenças e o sobrenatural e procura-se dar uma explicação para o universo de maneira bem fundamentada. Este modelo foi inaugurado por Tales de Mileto, cujo elemento primordial é a água. Para ele, todas as coisas são derivadas da água. Abrem-se, assim, a partir desse instante, todas as portas para o pensamento científico. Com o modelo racional inaugurado, surge uma nova nomenclatura, cujas palavras passam agora a terminar em “logia”, termo derivado do logos.

 

            Aparecem então várias escolas filosóficas que, posteriormente, vão ser denominadas de escolas filosóficas pré-socráticas, em virtude da grande influência do filósofo grego de Atenas Sócrates (469-399 anos a.C.), mestre de Platão (428-347 anos a.C.).

 

            As principais escolas são a Jônica, fundada em uma colônia grega chamada Jônia, que ficava situada na costa ocidental da Asia Menor – hoje região da Turquia – e, na sequência, a escola Pitagórica, fundada por Pitágoras de Samos, cujo elemento primordial são os números; a Eleática, cujo expoente máximo é o grande pensador Parmênides de Eleia, tendo por elemento primordial o ser, e finalmente a pluralista, que admitia não apenas um elemento único que desse origem a todas as coisas, mas a reunião de todos os elementos (água, ar, fogo e terra).

 

            Heráclito de Éfeso, da escola Jônica, dizia que um homem não passa duas vezes em um mesmo rio, ou seja, era um grande defensor do devir. Para ele, todas as coisas estão em fluxo perpétuo. Por isso, os jônicos defendiam a tese do mobilismo universal.  Seu oponente são os eleáticos, sobretudo Parmênides de Eleia que o acusa de conceder demasiada importância aos dados fornecidos pelos sentidos. Parmênides dizia que o movimento é uma ilusão e defendia a tese do imobilismo universal. Afirmava: “O ser é e o não-ser não é”, sentença que vai dar base para todos os tratados de lógica surgidos posteriormente.

 

            Quase todas essas escolas filosóficas concentraram as suas investigações basicamente na physis, termo grego que se traduz, normalmente, por natureza. O conceito de natureza, para um grego antigo, difere muito de nosso conceito de natureza moderno. Para um grego antigo, natureza é tudo aquilo que brota, emerge, surge etc. por si mesmo. Não há nenhuma força por trás da natureza fazendo com que as coisas surjam. A ação de fazer todas as coisas surgirem é a própria natureza.

 

            As investigações filosóficas, na Grécia clássica, a partir de Sócrates, dão uma nova guinada e ganha um outro rumo. Agora, elas se voltam para o homem. Inaugura-se um novo modelo de investigação, denominado de antropológico. O homem torna-se o objeto central das investigações. Mas Sócrates prima pela essência do homem, ao passo que os sofistas –  professores ambulantes, que ensinavam a arte da eloquência – visavam o homem individual, fazendo deste o seu objeto de conhecimento para alcançar sucesso pessoal. Desse modo, em face das discussões travadas em praça pública –  ágora –, entre sofistas e filósofos, a filosofia atinge o seu coroamento, na Grécia antiga, com os três grandes filósofos, dois atenienses, Sócrates e Platão, e um estagirita, Aristóteles.

 

            Assim, como vimos acima, a filosofia veio, ao logo desses dois mil e setecentos anos, tecendo uma nova maneira do homem se ver e ver o universo e, além disso, tentando romper com determinados pontos de vista e dogmas que em nada contribuem para o avanço do ser humano. Logo, filosofar não é se colocar como o dono da verdade, mas, pelo contrário, é se colocar na condição de que nada se sabe, pois assim, novas portas e novos horizontes vão se abrir. Desse modo, fica desde já aqui um convite para que nos despertemos para um novo pensar, um pensar que procura pensar o próprio pensar. Assim é o pensador, isto é, aquele que pensa pensamento.

 

terça-feira, 28 de novembro de 2023

DAS ILUSÕES E DESILUSÕES E O PESSIMISMO COMO PARÂMETRO

                                                                                                                                                                                                                                                                                                       Syro Cabral de Oliveira

                                                                “Era uma vez uma corrida… de sapinhos!

                                                               O objetivo era atingir o alto de uma grande torre.

                                                               Havia no local uma multidão assistindo.

                                                               Muita gente para vibrar e torcer por eles.

                                                               Começou a competição. Mas como a multidão não acreditava que os sapinhos

                                                               Pudessem alcançar o alto daquela torre, o que mais se ouvia era:

 

                                                               “…Que pena!! – Esses sapinhos não vão conseguir. Não vão conseguir.”

 

                                                               E os sapinhos começaram a desistir. Mas havia um que persistia e continuava a

                                                               subida, em busca do topo.

 

                                                        “…Que pena!!! – Vocês não vão conseguir!” E os sapinhos estavam mesmo                                                                                desistindo um por um – menos aquele sapinho que continuava tranquilo… embora

                                                            cada vez mais arfante.

 

                                                               Já ao final da competição, todos desistiram – menos ele.

                                                               A curiosidade tomou conta de todos.

                                                               Queriam saber o que tinha acontecido…

                                                               E assim, quando foram perguntar ao sapinho como ele havia conseguido concluir

                                                               a prova, aí sim conseguiram descobrir…

 

                                                               Ele era surdo!…”

 

                        Na tarde do dia 09 de agosto de 2001, numa sexta-feira, um grupo de professores de Filosofia da Escola Técnica do Estado do Rio de Janeiro reuniu-se para tratar de assuntos inerentes a sua área de atuação. O tema a ser tratado especificamente deveria girar em torno de uma proposta de inserção da disciplina Filosofia nos três anos de Ensino Médio naquela Instituição e um programa a ser naturalmente seguido. Embora a intenção, em princípio, fosse a de redigir um documento ou, pelo menos, alinhavar os principais pontos acerca da referida proposta, na realidade, nada disso ocorreu. Infelizmente, mais de 80% do tempo destinado à reunião foram consumidos em torno de discussões fúteis e vazias, ou melhor, discussões em vão, que nada acrescentaram, quando, na verdade, a proposta, em tese, não era esta, ou seja, a de se discutir acerca de dificuldades ou empecilho em relação à implantação de uma nova proposta e sim a de elaborar um documento significativo para ser submetido àquela Instituição. Na hipótese, porventura, de uma resposta negativa acerca de tais sugestões, aí sim, o grupo teria que se municiar para derrubar os argumentos contrários.

                        Essa reunião, no entanto, ao que nos parece, foi bastante frutífera, pois deu para se corroborar a nossa velha tese de que o pessimismo tem sobrepujado as grandes ideias, por melhores que sejam, por imposição evidentemente de um conceito, já universalmente aceito, da destruição de todos os valores autoafirmativos, por meio de uma crítica demolidora que se dá por intermédio da crítica pela crítica. Dessa forma, por meio de uma mão invisível, as pessoas são impingidas, de maneira inconsciente, a fazer, cada vez mais, fortificarem as ideias dos propalados partidos do chamado modernismo e de suas artes de fancarias denominadas de futurismo, dadaísmo, cubismo. Esses partidários têm por missão a tarefa de fortalecer e atrair adeptos para a doutrina do pessimismo. Com isso, o investimento na individualidade é sempre rechaçado, literalmente, com todas as forças que esses doutrinadores possuem. A razão disso é clara. É que os negativistas se juntam, com grande facilidade, como um rebanho domesticado.

                        É sabido que os grandes espíritos trabalham, na maioria das vezes, em silêncio e isoladamente, em consequência, evidentemente, de sua grande virtuosidade. E, em contrapartida, os medíocres são, por natureza, animais gregários, que se juntam como uma chusma de cavalos selvagens diante de um perigo em iminência. Mas, uma vez cessado o perigo, se isolam, como uma abelha em seu casulo.

                        As inteligências, que pairam acima de tudo e de todas as coisas, procuram reforçar, veementemente, esses sentimentos de agregação, com todas as palavras de ordem, tão propaladas entre os incautos: democracia, socialismo, comunismo, parlamentarismo e coisas do gênero. E vão ainda mais longe: criam ciências e falam em nome delas, como se as fossem a última palavra em relação à essência de todas as coisas. Para que não haja nenhum obstáculo em seus projetos, em nome dessas ciências, domesticam as pessoas e reforçam a cultura da irresolução e da obtusidade. Quanto maior for o grau de irresolução e de obtusidade do indivíduo, maior será a sua chance de assumir cargos de chefia nas grandes repartições, quer sejam elas públicas, quer sejam iniciativas privadas. Assim, os cargos de confiança, ou qualquer função ligada a postos de comando das Instituições, são sempre confiados a indivíduos que possuam essas características. A indecisão, a submissão, a docilidade etc. são os elementos paradigmáticos à manutenção do sistema em jogo, pois, as suas limitações contribuem, e muito, para a continuação e fortalecimento do modelo estabelecido, sem risco algum de perturbação da ordem em vigor.

                        Nesse sentido, as ideias que sustentam que o mundo é governado por um fragmento de inteligência, a cada dia, mais se consolidam. Aquilo que sempre pensamos, isoladamente, tem se confirmado, com muita evidência, quando nos reunimos, com determinadas pessoas, para discutir assuntos que teriam por objetivo alterar a ordem vigente. Temos constatado que tanto em grupos oficiais, tais como os partidos políticos legalizados, quer os chamados de esquerda, quer os de direita etc., como os não-oficiais, os sintomas têm sido sempre os mesmos, isto é, apresentam-se os mesmos sentimentos. Sentimentos esses que são sempre manifestos em forma de pessimismo. Discutem o tempo todo acerca de dificuldades de implantar uma nova ideia, mas nunca procuram elaborá-la.

                        É fato que deveríamos ter sempre em mente, que antes de discutirmos acerca das dificuldades que possamos deparar pela frente, em relação a um determinado projeto, teríamos que, de antemão, elaborar a nova ideia, que teria naturalmente por prerrogativa sobrepujar ou suplantar a ideia ou conceito vigente, e, além disso, procurarmos buscar para ela o maior número de simpatizantes possível. Entretanto, isso nunca ocorre. E isso não ocorre não é por acaso, mas sim, em virtude do modelo imposto pelos grupos, ocultamente, dominantes.

                        Infelizmente, as coisas se dão assim mesmo. Os trabalhos sérios já nascem póstumos, pois, só as gerações do futuro os compreendem claramente.

                        Pensamos que é de extrema necessidade prepararmos, desde cedo, as bases sólidas da formação de um povo, para que, desse modo, possamos erguer um grande edifício duradouro, porque, são nessas bases que reside a formação do homem, sobretudo, quando nos referimos a formação do caráter, entendendo este último termo em seu sentido original, isto é, como a maneira de ser própria do homem, o seu lugar, a sua permanência, em outras palavras: o ethos.

                        A experiência narrada por um professor, tida em sala de aula, tornou-se muito   esclarecedora e, ao mesmo tempo, também desoladora. Numa certa ocasião, segundo ele, uma aluna – resistindo a todo custo a entregar-se ao processo de conhecimento – questionou o seu método de trabalho, e, insatisfeita por não ter tido seus caprichos atendidos, disse-lhe que iria à direção da escola reivindicar os seus direitos. Diante de tal atitude, tal professor calou-se e começou então a se questionar: “Será que isso é o resultado da escola, tão propalada, a todos os cantos, como modelo de escola democrática, a qual só enfatiza direitos, direitos e deveres nada? Como a referida aluna reivindicará os seus direitos, sem que, antes, ela tenha cumprido com os seus deveres? Por acaso, ela se esforçou em cumprir com todas as tarefas propostas em sala de aula?, e outras?”

                        Tal professor questionou-se muito. Depois de analisar a questão por meio de vários aspectos, concluiu que não poderia aprovar o modelo de educação, cujos princípios estão assentados numa base negativista, que tem por objetivo somente tecer críticas demolidoras sobre todos os valores construídos ao longo de várias gerações.

                        Se analisarmos a questão por outro ângulo, concluiremos que “o espírito humano não consegue galgar alturas sem passar por degraus; para cada passo ascendente, necessita ele do fundamento do passado, naquele sentido lato só na cultura geral pode transparecer. Apenas uma pequena parte do pensamento universal repousa sobre o conhecimento próprio; a maior parte é devido às experiências de épocas precedentes. O nível geral de cultura mune o indivíduo sem que disso ele se perceba, de uma tal riqueza de conhecimentos preliminares, que, assim preparado, ele mais facilmente, seguirá o seu caminho.”

                        O povo que não possui uma cultura própria e nem se esforça para possuí-la, as bases do seu trabalho espiritual sempre serão ditadas por outros povos. Seu intelecto desenvolver-se-á sempre por influências do mundo civilizado que o cerca. Um povo, para se desenvolver ao máximo, necessita de uma organização que se repouse “sobre o princípio de sacrifício que cada indivíduo faz de sua opinião e de seus interesses pessoais em proveito de uma pluralidade de criaturas”, ao estilo da concepção da polis grega. A cidade ou Estado, dentro da concepção grega, não tem autoridade sobre o povo – o seu território exerce um papel insignificante –, pois, o Estado é um contingente e o povo é o seu conteúdo. O que vale, portanto, é a concepção de, digamos, brasileiros ou, como dizia Helena de Teodectes: “Eu sou grega” –, ela que descendia tanto do lado paterno, como do lado materno de deuses. Assim, ser brasileiro seria, necessariamente, pensar em nome de uma existência cultural, a que cada cidadão deveria zelar e defendê-la até as últimas consequências. Porém, essa concepção teria que ser inoculada na mente de cada indivíduo, desde seu nascimento.

                        E, é isso que poderíamos chamar de abnegação, ou seja, quando “a coroação de todo espírito reside no sacrifício da própria vida individual, em prol da existência coletiva.” Daí o termo “cumprimento do dever” significar não se contentar o indivíduo somente consigo, mas em procurar servir à coletividade.

                        A cultura da mediocridade e da submissão, nos dias de hoje, por imposição de interesses maiores, tem ocupado um lugar de grande destaque no seio dos povos subdesenvolvidos, tanto no que se refere às criações espirituais, como no campo material. E é, por conta disso, que vimos, de maneira sistemática, examinando essa questão a fundo. Ao lermos, por exemplo, uma das obras do tão enaltecido educador e pedagogo Paulo Freire – Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa –, sentimo-nos muito constrangidos diante da insistente apologia que ele faz da humildade.

                        Pensamos, no entanto, que uma pessoa que pretenda realizar um trabalho crítico e consciente, não ficaria bem nela, em hipótese alguma, fazer a apologia da humildade, visto que, como já dizia Homero, poeta grego, que viveu por volta do século X a.C., que a humildade não ficaria bem em um sábio. E de fato não fica bem mesmo. Isto porque, a palavra grega tapeinós – a qual se traduz para a língua portuguesa por humilde – quer dizer baixo, pouco elevado, mesquinho, pequenez, ou melhor, pequenez de espírito. Vê-se que, em sua origem, esse termo é usado em sentido negativo e, no entanto, o usamos atualmente positivamente. Mas, por que razão? Simplesmente, porque Tomás de Aquino deu-lhe um significado adverso daquele em que os gregos o empregavam. Aquino apropriou-se do termo aristotélico megalopsiquia (magnânimo em latim), isto é, grande de espírito, e atribuiu-lhe à palavra humilde. Nesse sentido, para Tomás de Aquino, grande é aquele que ao apanhar em uma das faces do rosto oferece a outra. Quer dizer: a grandeza de suportar o sofrimento, que somente os pequenos de espírito estão sujeitos em sua totalidade. Em outras palavras, este comportamento não é nada mais, nada menos que a moral dos escravos, como acentua Nietzsche, em uma de suas obras.

                        Ora, não há nada mais pequeno do que a sujeição, a submissão. E daí, nos perguntamos: como podemos compactuar com as ideias de FREIRE, em sua totalidade, já que a substancialidade de seu discurso é amparada nessas qualidades referidas acima e, portanto, um tanto incoerente com sua proposta, a qual consiste em denunciar a dicotomia dominante/dominado.

                        Voltando, então, ao assunto da referida reunião… Quando nela citamos a Europa, como exemplo de países que adotam, em suas grades curriculares, o ensino da disciplina Filosofia como obrigatório, desde o equivalente ao Ensino Fundamental nosso – e por conta disso gerou um mal-estar entre os participantes da reunião –, não tivemos, é claro, a menor intenção de copiá-los, até porque, a Filosofia não é, em hipótese alguma, uma prerrogativa daqueles países europeus, tais como, a Alemanha e a França. A Filosofia nasceu na Grécia Antiga e, portanto, ela é originariamente grega. O que quisemos dizer é que a Europa sabe muito bem o que é bom para o ser humano, e, se os europeus estão desenvolvidos como tal, não é por acaso, mas justamente graças a esse tipo de pensamento que tanto eles defendem. Os europeus não fazem somente uso dessa maneira de pensar, que nasceu na Grécia Antiga, como também procuram acolher ideias de outros povos, tais como as dos brasileiros, quando julgam necessárias. Sabemos que os alemães citam autores brasileiros, que muitas vezes, são absolutamente desconhecidos entre nós. Mas, se pensarmos a Filosofia como algo que traz em si mesma uma certa identidade como, por exemplo, um produto químico, que ao entrar em contato com outras substâncias as contamina, ou, uma doutrina, que tem por objetivo fazer seus seguidores enxergarem o mundo a partir de seu ponto de vista, evidentemente, que estaríamos de pleno acordo de não os imitar. E é justamente em razão disso que estamos convencidos de que o que nos permite vermos todas as cores é exatamente a natureza incolor dos nossos nervos ópticos, pois se eles possuíssem uma certa coloração, por exemplo, a cor avermelhada, com certeza, veríamos o mundo inteiramente vermelho.

                        E nesse aspecto, não poderíamos também deixar de abordar um outro ponto. Referimo-nos aqui à Filosofia propriamente dita e o tratamento que a ela se dispensa. Costuma-se polemizar em torno dela, na tentativa de qualificá-la como um saber desinteressado. Ora, é preciso, no entanto, que entendamos o que queremos dizer com o termo desinteressado. Desinteressado, em alemão, se diz “selbstlos”, o que, ao pé da letra, significa “sem si mesmo”, isto é, para Nietzsche, sem um eu, sem um ser próprio.

                        Nesse sentido, gostaríamos de acrescentar que as coisas devem ser entendidas de acordo com a sua verdadeira natureza. Dizer que a Filosofia é desinteressada, no sentido em que foi explanado o termo selbstlos, mencionado acima, seria, no mínimo um contrassenso, pois, toda filosofia é própria do ser humano e, portanto, um filósofo não “faz” filosofia desencarnado, sem o seu eu. Nessa acepção, a Filosofia é interessada. Mas, por outro lado, devemos entender que quando afirmamos que a Filosofia é desinteressada, queremos com isso dizer que ela repousa sobre um idealismo, cujo princípio contrapõe qualquer forma de egoísmo, e visa, acima de tudo, aos interesses humanos no seu sentido mais rigoroso possível. Assim sendo, a Filosofia transcende o que de há de mais mesquinho, mais pequenino e demasiadamente humano, para buscar e defender o que há de mais magno – em sentido rigoroso –, nobilitante e aristocrático, entendendo esta última palavra em conformidade com o seu étimo, como significando bom, excelente, e daí a alma distinta e nobre, no sentido de alma superior. “Por esta razão, os nobres são chamados de ‘poderosos’, ‘capitães’, ou segundo os sinais mais visíveis desta superioridade, por exemplo, os ‘ricos’, os ‘proprietários’ etc.” – NIETZSCHE. Genealogia da moral.

                        Assim compreendido, mais uma vez fica claro que a Filosofia, em sua essência, visa ao que há de mais excelso da espécie humana, ou seja, tudo aquilo que sobrepuja toda forma de pensar que tenha por finalidade privilegiar o que há de mais baixo na natureza humana.

                        Portanto, de acordo com o exposto acima, não há, absolutamente, nada em contradição com o pensamento de Nietzsche.

                        Além disso, podemos concluir que um povo que, por natureza, possua o germe da grandeza, do que há mais elevado no mundo, no que se refere aos feitos humanos, jamais medirá esforços para atingir seu objetivo. E é, justamente, por esta razão que estamos, absolutamente, convencidos de que, se há povos desenvolvidos e subdesenvolvidos sobre a face da Terra, não é por conta da dicotomia dominante/dominado, mas, porque os subdesenvolvidos são compostos de elementos carentes, geneticamente, de uma espécie de chama que os impulsione aos grandes feitos humanos e do glorioso desejo de vitória.

                        Daí, vermos que fica claro, também, para nós, que o pessimismo e o negativismo não são senão uma forma desoladora de justificar o fracasso hereditário de determinadas pessoas ou, até mesmo, de povos inteiros, pois é muito fácil apontar dificuldades em tudo – porque as dificuldades se dão sobre algo existente na atualidade – do que apresentar novas ideias ou uma nova concepção de mundo. Eis a razão da proliferação, em grande escala, atualmente, dos chamados filósofos da linguagem, pois não necessitam adentrar mares para a conquista de um novo mundo, mas apenas analisar um mundo já existente e pronto.

                        Afinal de contas, o que será do mundo quando o último desses homens inventivos se extinguir? Somente com a redução deles, estamos presenciando um caminhar para uma dominação global… Não devemos perder de vista que já há muito esforços desprendidos para sufocar os homens de espírito elevado, porque, por natureza são indóceis e, consequentemente, incomodam os que apostam na manutenção do atual estado de coisas.

sábado, 9 de abril de 2022

 

UM PROBLEMA DE ORDEM CONCEITUAL E SUAS IMPLICAÇÕES

Syro Cabral de Oliveira

 

                        Em primeiro de julho do ano 2002, um grupo de professores de Filosofia reuniu-se com uma professora supervisora de uma determinada escola técnica do Estado do Rio de Janeiro, a seu pedido.

                        O assunto que os moveu à reunião foi a controvérsia em torno de prova única aplicada aos alunos daquela escola. Segundo a referida professora supervisora, tal prova não deveria ter caráter avaliativo de conteúdo, mas sim o de avaliar habilidades e competências.

                        Enquanto, de um lado, a professora supervisora defendia a manutenção da referida prova, de um outro lado, os professores de Filosofia questionavam não o problema de sua manutenção ou não, mas a forma pela qual ela seria elaborada e seu aspecto avaliativo. Se de um lado, os professores permaneciam a sustentar a ideia de que não estavam contra a prova única propriamente dita, mas a forma pela qual ela seria elaborada, a supervisora tentava rebatê-los com argumentos de que estavam desinformados.

                        Nesse momento, desapareceu, obviamente, o objeto de acordo comum e, concomitantemente, a argumentação, pois, é fato que só há argumento se e somente se houver objeto de acordo comum. Na ausência de tal objeto, a argumentação cessa necessariamente e juntamente o feedback1.

                        Foi, então, nesse interregno da discussão que tais professores perceberam a verdadeira natureza do problema da professora supervisora.

                        Infelizmente, a professora incorria em dois erros conceituais. O primeiro estava ligado ao conceito de interdisciplinaridade, o qual, dizia a supervisora o ter adquirido com a leitura de um texto em que o autor o ilustrava com o mencionado conceito, recorrendo à orquestra sinfônica. No referido texto, segundo a professora, o autor afirmava que a interdisciplinaridade ocorre no momento em que os músicos seguem a marcação de tempos executada com a batuta, pelo regente.

                        Até aí não haveria nenhuma dificuldade, em princípio. A dificuldade começou, no entanto, no momento em que a professora fez uma analogia entre o conceito de interdisciplinaridade, utilizado na orquestra sinfônica e o conceito do mesmo termo, utilizado nas escolas de formação geral. É claro que o conceito de interdisciplinaridade no primeiro caso está relacionado à obediência, à ordem de funcionamento etc., que vai resultar na harmonia. Cada músico executa seu instrumento de acordo com a marcação do maestro. Não há interligação entre um músico e outro. O que importa são os sinais, ou movimentos, observados pelos músicos, executados pelo regente. Já no segundo caso, ou seja, nas escolas de formação geral, a interdisciplinaridade está diretamente relacionada ao conjunto das disciplinas, ou matérias, lecionadas. Neste caso, a interdisciplinaridade está ligada à capacidade de o professor fazer o aluno perceber que naturalmente é possível fazer uma leitura de cunho filosófico, histórico, geográfico de um único texto. Na verdade, é a visão de que o conhecimento é uma totalidade. Sua fragmentação é, simplesmente, um recurso didático para facilitar o processo de ensino-aprendizagem.

                        Devido às nossas necessidades atuais, procura-se privilegiar a interdisciplinaridade para superar a ideia que passou a predominar, a partir da Idade Moderna, da formação dos especialistas, isto é, cada profissional não tem necessidade de ser versado em diferentes habilidades. Pelo contrário, o que se exige dele é a qualificação isolada, aos extremos, em uma determinada atividade. E essa prática atinge seu auge, de maneira extraordinária, em meados do século XX, com o chamado período fordista.

                        Neste caso, o que está em jogo é a ideia de divisão de mão de obra. Cada indivíduo executa, isoladamente, uma determinada atividade, dando a perfeição ao produto final, sem a necessidade de uma qualificação que permita uma visão geral de todas as atividades isoladas.

                        Em um segundo momento, a professora sustentava que a saída para dar uma formação diversificada aos alunos seria a aplicação de uma prova única, que visasse não o conhecimento de conteúdo, mas as habilidades e competências. Ocorre, entretanto, nesse momento, que a professora incorria em outro erro, pois demonstrou não discernir, com clareza, o conceito de especialidade.

                        Ora, como ficou exposto acima, a especialidade é a capacidade que o indivíduo tem de exercer uma determinada atividade, de maneira isolada, sem depender de outros conhecimentos que não sejam específicos àquela atividade. É o caso, por exemplo, do músico de uma orquestra sinfônica, ou melhor ainda, dos metalúrgicos, em uma fábrica de automóvel, onde cada metalúrgico é um especialista, aos extremos, em uma determinada atividade, a ponto de não ter a menor noção do produto final que, no caso específico aqui, é o automóvel. Este torna-se, à vista de cada especialista, um fetiche. Nesse caso, o especialista não se reconhece na sua própria obra, a qual torna-se-lhe estranha. É o trabalhador alienado, em seu sentido rigoroso. E é isso que um bom educador deve combater, com todas as suas forças que as possa utilizar.

                        Pois bem. Vejamos, rapidamente, como surgiu a ideia da formação de especialista.

                        Da Grécia Antiga, até a Idade Média, a Filosofia designava a totalidade do conhecimento racional. A partir da Idade Moderna, “o vasto campo filosófico entrou num processo de redução”. A realidade a ser conhecida passou a ser dividida, recortada, despertando estudo especializado. Era a separação entre ciência e Filosofia.

                        Com o processo de especialização do mundo científico, cada ciência passou a investigar campos determinados da realidade e o faz “ainda hoje de forma cada vez mais localizada.” Hoje, vivemos uma era de especialistas, que se fecham em determinados domínios do saber e, com isso, perderam “a visão mais ampla do conhecimento humano.” Sabem muito sobre pouco e nada sobre a amplitude do conhecimento. O conhecimento tornou-se fragmentos da totalidade do universo do ser. “Nesse contexto, a Filosofia passou a ter o papel, entre outros, de recuperar a unidade do saber, de questionar a validade dos métodos e critérios adotados pelas ciências. Isto é, passou a desenvolver o trabalho de reflexão sobre os conhecimentos alcançados por todas as ciências, além da procura de respostas à finalidade, ao sentido e ao valor da vida e do mundo.”

                        No que foi exposto acima, a maior dificuldade, infelizmente, reside no que segue. É que a maioria de nossos professores é especialista e, como tal, não vê o mundo senão por meio desse ponto de vista, ou seja, da especialidade, à maneira dos freudianos e marxistas. Para os primeiros, todo indivíduo sofre de uma espécie de neurose, ao passo que, os últimos não veem outra coisa, nas sociedades, senão luta de classes. A prova dessa visão limitada, ou melhor, desse reducionismo, é que nossos alunos, e por que não alguns professores, também, passam o tempo todo questionando a importância das disciplinas, tais como, Filosofia, História, e outras afins, e nunca questionam acerca da real importância de matérias como Matemática, Física, Química etc. O que eles não percebem é que a maioria das pessoas vive na prática, no seu dia a dia, sem os conhecimentos dessas últimas disciplinas e, pelo contrário, não consegue viver sem os conceitos filosóficos, tais como, o de política, ética, justiça, direito, dever, liberdade, relação causa-efeito, ideia de grandeza, espaço etc. Tem esses conceitos não como descobertos ou elaborados, mas como coisas dadas. Vive, no seu dia a dia, com esses conceitos, inconscientemente, e não percebe sequer que, na verdade, são obra da criação humana e, portanto, não existem, em si mesmos, na realidade externa e sim somente em nossas mentes, como entes intramentais. Não percebe, também, que não cabe ao matemático, ao religioso, ao físico, ao especialista, em qualquer que seja sua área de atuação, perguntarem, respectivamente, pela natureza do número, da religião, do movimento, da especialidade, porque, estas questões são, naturalmente, de ordem filosófica e, como tal, são de exclusividade dos filósofos2. Não percebem, ainda, que é de exclusiva competência de os filósofos armarem sistemas tão claros como os diamantes sem jaça, que os leigos os seguem, com uma fé apodíctica, como fossem obras divinas. E, além disso, que os fundamentos de todas as ciências se acham na Filosofia. E daí, com toda justeza, ser denominada de rainha. E, por último, não conseguem perceber, também, que ao matemático cabe apenas admitir a existência a priori dos números e operar com eles. A pergunta se os números existem em si mesmos ou não, se são entes ontológicos ou entes de razão, é exclusivamente da competência dos filósofos. Portanto, os cientistas operam com um mundo já dado, de antemão, e uma grande parte deles não percebe sequer que foram os filósofos que lhe deram sentido.

                        Sem esses conceitos explicitados pelos filósofos, não poderíamos, talvez, sequer caminhar, com tanta desenvoltura e com toda segurança de que o sol é uma estrela de quinta grandeza, em uma manhã ensolarada, pelas ruas das cidades…

1(…) No relacionamento entre pessoas, ‘damos’ feedback a alguém quando oferecemos ao outro oportunidade para explorar alternativas sobre o que percebemos a respeito delas, e ‘recebemos’ feedback ao percebermos como o outro reage a nós. Neste sentido, feedback nos permite ver, como num, em um enfoque crítico, a adequação ou a inadequação de nossas ideias, sentimentos ou ações – Dicionário de Comunicação, Ed. Codecri.

2. Designamos de filósofo não necessariamente quem passou por uma academia – isto porque as nossas atuais academias são verdadeiros leitos de Procusto, cuja função não é outra senão a de propriamente castrar o verdadeiro filosofar mais do que fomentá-lo –, mas aquele que possui uma predisposição natural para tal.

sábado, 26 de junho de 2021

 

CONFLITO DE VALORESi

Syro Cabral de Oliveira

Uma andorinha só não faz, verão!


                                                                            A andorinha e os outros pássaros

Uma andorinha, tendo visto um lavrador semear visco no campo, mandou reunir todos os pássaros e disse-lhes que o visco servia para fazer redes de passarinheiros e armadilhas. A andorinha pediu-lhes insistentemente que a ajudassem a apanhar as sementes e a destruí-las. Embora ouvissem o que ela lhes disse, os outros pássaros não fizeram nada e, assim, com o tempo, o visco rebentou, ganhando raízes no solo. Mais uma vez, a andorinha avisou-os, dizendo-lhes que ainda não era tarde para evitarem as complicações se atuassem imediatamente. Mas os pássaros continuaram a ignorá-la e a andorinha deixou os bosques e foi viver na cidade. O visco cresceu alto e forte e foi colhido. Mais tarde, a andorinha viu alguns dos pássaros que tinham sido apanhados recentemente nas redes feitas com o visco contra o qual ela os avisara. Agora, eles tinham aprendido a lição, mas era demasiado tarde.

Os homens sábios sabem prever os efeitos de certas causas, mas os loucos nunca acreditarão neles, até ser demasiado tarde para impedir o desastre. Demoram-se e arriscam-se.

ESOPO

        Para os pais, a Escola está cumprindo com o seu papel satisfatoriamente, mas na realidade isso não vem ocorrendo em sua plenitude. Desse modo, quando algum professor procura seguir à risca os procedimentos inerentes a uma boa educação (formação da conduta humana), esses procedimentos, num olhar precipitado, parecem ser um desvio da normalidade. A razão disso está justamente no confronto de ideias que se dá entre o consueto e a aplicação da arte, entendida essa como capacidade intelectual que faculta a mais alta distinção entre o falso e o verdadeiro. Esta arte, quando posta em ação de modo absoluto, se apresenta como uma transgressão ao habitual. Como o habitual não é nada mais nada menos do que a repetição, com uma certa frequência, de um determinado evento, à primeira vista parece ser o correto – e é assim mesmo que as pessoas costumam pensar: tudo que se repete, obedecendo a uma certa sequência mais ou menos constante, é o correto –, os pais, em face disso, entram obviamente em choque quando veem esta “normalidade” quebrada, já que aquela confiança cega, que eles sempre depositaram nos seus filhos – é colocada em xeque. Esta frustração não é de fato à-toa, porque, a interiorização de nossos valores, na verdade, é fruto da repetição de uma gama de modelos preestabelecida por uma superestrutura social que dita o que ela determina ser o “correto”. Desse modo, a coisa se complica ainda mais quando se tenta aplicar estes atos repetitivos genericamente de maneira irrefletida. Quando se tem, por exemplo, uma verdade particular e se queira aplicá-la ao universal.

Ora, vejamos, pois. Em virtude da frequência com que se dê um evento, as pessoas ingênuas tendem a tomá-lo como uma lei. Ora, a verdadeira essência da lei não está nem sempre na repetição de um fato, mas na própria natureza deste. Como o modo de pensar do chamado homem moderno (para não fazer uso de um termo muito em voga e pomposo: globalizado) está inteiramente influenciado pelo atual modelo científico, isto é, pela démarche indutiva, que se funda justamente na frequência com que se dê um evento – o que não é errôneo para casos particulares –, as pessoas comuns seguem esse modelo como se fosse uma verdade absoluta. O erro não está, muitas vezes, na repetição de um evento, quando esta é considerada dentro de uma determinada especificidade, mas na aplicação da conclusão de que a lei é sempre fruto da frequência de uma repetição, isto é, quando se toma esta repetição particular como uma regra geral e se a aplica ao universal. Ora, se isso fosse verdadeiro, o fato, por exemplo, de alguém jogar uma moeda para o alto cinquenta vezes e todas as vezes que a moeda tocar o chão ter a coroa voltada para cima, poderíamos concluir, a partir daí, com toda justeza que a próxima vez que a moeda for lançada ao ar cairá necessariamente no chão com a coroa voltada para cima. No entanto, todos sabemos que a coisa não se passa precisamente assim, porque, por mais que haja a repetição, a chance de cair cara ou coroa voltada para cima continuará sendo de cinquenta por cento no próximo lançamento da moeda para o ar. A menos que se trate de uma moeda viciada.

Diante da inadequação, isto é, de tomar o acaso pelo necessário, as pessoas se sentem frustradas e, de imediato, concluem que é a realidade que está errada e não a sua interpretação dos fatos influenciada por um método de natureza indutiva, que está inteiramente inapropriado para se fazer dele um uso de caráter absoluto. Consequentemente podemos, logo, concluir, com toda propriedade, que formar estrutura é fácil, o difícil é quebrá-la. E é assim mesmo que nascem os paradigmas.

        Daí, no caso específico aqui, o grande conflito. Entre um professor e uma Instituição dificilmente alguém hesitaria em ficar com a segunda. Porque, na ordem dos sentidos, imagina irrefletidamente que o maior sempre sobrepuja o menor. Nunca pensa que isso é absolutamente verdadeiro no âmbito do quantitativo e não no do qualitativo. Sabemos que, na esfera dos valores morais positivos, estes têm sido, ao longo dos tempos, objeto de fracasso. A imoralidade tem sempre triunfado de maneira colossal, como já dizia o nosso grande e saudoso Rui Barbosa, “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.”

        Desse modo, a Escola continua fingindo que está cumprindo com o seu papel satisfatoriamente, pois, todos os professores que insistirem nessa direção, isto é, a de optar pela efetivação de ações que tenham por objetivo a formação do caráter nobre no jovem, pagarão obviamente um preço alto. Para que esse preço não se efetive, cada professor, de modo individual, deverá abdicar de seus projetos pessoais em prol de um pseudo-universal. E assim, a cultura do fracasso, a cada dia que passa, vai se intumescendo assustadoramente. Nesse sentido, a irresponsabilidade vai grassando e universalizando-se em todos os níveis da sociedade. Vejamos como a cultura irrefletida vem se oficializando.

        Numa determinada escola pública ocorreu um episódio bastante engraçado, com um professor, para não dizer muito ignóbil e asqueroso. Esse professor marcou uma avaliação para a primeira semana após o período de recesso, o que pareceu muito extravagante e fora de propósito à vista de alguns de seus colegas de profissão. Não sabiam estes que a sua formação não o permitia compreender, com clareza, a linha divisória entre o que está ligado a um caráter nobre e um caráter baixo. Isto porque, no seu modo de entender as coisas, há na verdade dois mundos que não se misturam. Um de seres absolutamente autogovernáveis, isto é, de seres realmente humanos, e um outro que na realidade não passa de um fosso, onde vivem seres que de humano só têm a aparência. Não sabemos, nesse caso, distingui-los, com clareza, se de fato são seres humanos ou autênticos animais irracionais, que se deixam guiar apenas pelos instintos, os mais abomináveis possíveis. Pois o processo de educação não é outra coisa senão análogo ao cultivo de uma planta. Seu desenvolvimento é diretamente proporcional à seleção cuidadosa da semente, à escolha do local onde ela deve ser colocada para germinar, ao acompanhamento de sua germinação etc. Em consequência disso, dá-se para perceber que o desempenho de suas características essenciais depende diretamente dos cuidados minuciosamente despendidos ao longo de sua formação, compreendendo esta como o coroamento de todos os valores intrínsecos à sua própria especificidade. Nesse sentido, para esse professor, nossas responsabilidades começam no momento em que assumimos determinados compromissos, sobretudo, quando envolvem outras pessoas diretamente. Assim, ele não conseguia graduar as nossas responsabilidades. No seu modo de pensar, elas são iguais tanto no início de uma determinada jornada de trabalho como no seu fim. Quer dizer: ele sempre se deixou guiar pelo princípio da coerência moral. O fato de um profissional chegar atrasado 30 minutos no primeiro dia de trabalho, em relação à hora predeterminada de entrada em seu setor, 40 minutos no segundo, 50 minutos no terceiro, 60 minutos no quarto dia não lhe dá o direito de chegar 70 minutos no próximo dia. E, além disso, no seu ponto de vista, jamais poderemos esperar que esse funcionário chegue ao próximo dia atrasado em relação ao seu horário predeterminado. Se o seu horário de entrada for às 8h da manhã, por exemplo, deveremos esperá-lo sempre que chegue às 8h da manhã. Não é o hábito do vício que deve tornar-se uma regra, mas o contrário, é o hábito do bom comportamento que deve ser estimulado, para que se torne uma frequência em nossas vidas.

        Se os professores não derem o bom exemplo, cumprindo com seus deveres e fazendo com que os seus alunos, por seu turno, cumpram também os seus, nunca poderemos esperar que o país venha a produzir estadistas de grande excelência como outrora, pois, não é, ao que parece, mais verossímil que desses últimos saiam os professores, como soem pensar, mas o contrário parece ser mais convincente. Assim, quando assistimos a alguns profissionais da educação reclamar dos atuais políticos, atribuindo-lhes todas as responsabilidades acerca dos erros e das mazelas por que passa o país, vemos que eles não percebem que de fato trata-se da cultura, já arraigada nesse povo, de que a responsabilidade por todos os problemas de ordem social é sempre do outro e nunca veem com clareza que são eles próprios também a fonte da degradação moral. Não percebem também que o papel da imprensa e dos governantes é justamente o de reproduzir valores já existentes na sociedade. Logo, se nós, profissionais da educação, não fizermos uma cuidadosa reflexão em torno dessa pseudocultura e não procurarmos dar o basta nela, rogando pelo princípio de autoridade – princípio este fundado na arte ou sabedoria a mais excelsa possível – já muito eclipsado nos tempos atuais, correremos o grave risco de um dia, não muito distante, não podermos entrar em sala de aula.

        E o mais bizarro de tudo isso é que não faltam pessoas para elogiar o jeitinho brasileiro.

iConflito de Valores é um texto antigo, do início da primeira década do século XXI, que muito hesitávamos em publicá-lo. Em virtude das circunstâncias atuais, resolvemos torná-lo público. Agradecemos comentários.