Syro Cabral de Oliveira
“Era
uma vez uma corrida… de sapinhos!
O
objetivo era atingir o alto de uma grande torre.
Havia
no local uma multidão assistindo.
Muita
gente para vibrar e torcer por eles.
Começou
a competição. Mas como a multidão não acreditava que os sapinhos
Pudessem
alcançar o alto daquela torre, o que mais se ouvia era:
“…Que
pena!! – Esses sapinhos não vão conseguir. Não vão conseguir.”
E
os sapinhos começaram a desistir. Mas havia um que persistia e continuava a
subida,
em busca do topo.
“…Que
pena!!! – Vocês não vão conseguir!” E os sapinhos estavam mesmo desistindo um por um – menos
aquele sapinho que continuava tranquilo… embora
cada
vez mais arfante.
Já
ao final da competição, todos desistiram – menos ele.
A
curiosidade tomou conta de todos.
Queriam
saber o que tinha acontecido…
E
assim, quando foram perguntar ao sapinho como ele havia conseguido concluir
a
prova, aí sim conseguiram descobrir…
Ele
era surdo!…”
Na tarde do dia 09 de agosto de
2001, numa sexta-feira, um grupo de professores de Filosofia da Escola Técnica
do Estado do Rio de Janeiro reuniu-se para tratar de assuntos inerentes a sua
área de atuação. O tema a ser tratado especificamente deveria girar em torno de
uma proposta de inserção da disciplina Filosofia nos três anos de Ensino Médio
naquela Instituição e um programa a ser naturalmente seguido. Embora a
intenção, em princípio, fosse a de redigir um documento ou, pelo menos,
alinhavar os principais pontos acerca da referida proposta, na realidade, nada
disso ocorreu. Infelizmente, mais de 80% do tempo destinado à reunião foram
consumidos em torno de discussões fúteis e vazias, ou melhor, discussões em
vão, que nada acrescentaram, quando, na verdade, a proposta, em tese, não era
esta, ou seja, a de se discutir acerca de dificuldades ou empecilho em relação
à implantação de uma nova proposta e sim a de elaborar um documento
significativo para ser submetido àquela Instituição. Na hipótese, porventura,
de uma resposta negativa acerca de tais sugestões, aí sim, o grupo teria que se
municiar para derrubar os argumentos contrários.
Essa reunião, no entanto, ao que
nos parece, foi bastante frutífera, pois deu para se corroborar a nossa velha
tese de que o pessimismo tem sobrepujado as grandes ideias, por melhores que
sejam, por imposição evidentemente de um conceito, já universalmente aceito, da
destruição de todos os valores autoafirmativos, por meio de uma crítica
demolidora que se dá por intermédio da crítica pela crítica. Dessa forma, por
meio de uma mão invisível, as pessoas são impingidas, de maneira inconsciente,
a fazer, cada vez mais, fortificarem as ideias dos propalados partidos do
chamado modernismo e de suas artes de fancarias denominadas de futurismo,
dadaísmo, cubismo. Esses partidários têm por missão a tarefa de fortalecer e
atrair adeptos para a doutrina do pessimismo. Com isso, o investimento na
individualidade é sempre rechaçado, literalmente, com todas as forças que esses
doutrinadores possuem. A razão disso é clara. É que os negativistas se juntam,
com grande facilidade, como um rebanho domesticado.
É sabido que os grandes espíritos
trabalham, na maioria das vezes, em silêncio e isoladamente, em consequência,
evidentemente, de sua grande virtuosidade. E, em contrapartida, os medíocres
são, por natureza, animais gregários, que se juntam como uma chusma de cavalos
selvagens diante de um perigo em iminência. Mas, uma vez cessado o perigo, se
isolam, como uma abelha em seu casulo.
As inteligências, que pairam acima
de tudo e de todas as coisas, procuram reforçar, veementemente, esses
sentimentos de agregação, com todas as palavras de ordem, tão propaladas entre
os incautos: democracia, socialismo, comunismo, parlamentarismo e coisas do
gênero. E vão ainda mais longe: criam ciências e falam em nome delas, como se
as fossem a última palavra em relação à essência de todas as coisas. Para que
não haja nenhum obstáculo em seus projetos, em nome dessas ciências, domesticam
as pessoas e reforçam a cultura da irresolução e da obtusidade. Quanto maior
for o grau de irresolução e de obtusidade do indivíduo, maior será a sua chance
de assumir cargos de chefia nas grandes repartições, quer sejam elas públicas,
quer sejam iniciativas privadas. Assim, os cargos de confiança, ou qualquer
função ligada a postos de comando das Instituições, são sempre confiados a
indivíduos que possuam essas características. A indecisão, a submissão, a
docilidade etc. são os elementos paradigmáticos à manutenção do sistema em
jogo, pois, as suas limitações contribuem, e muito, para a continuação e
fortalecimento do modelo estabelecido, sem risco algum de perturbação da ordem
em vigor.
Nesse sentido, as ideias que
sustentam que o mundo é governado por um fragmento de inteligência, a cada dia,
mais se consolidam. Aquilo que sempre pensamos, isoladamente, tem se
confirmado, com muita evidência, quando nos reunimos, com determinadas pessoas,
para discutir assuntos que teriam por objetivo alterar a ordem vigente. Temos
constatado que tanto em grupos oficiais, tais como os partidos políticos
legalizados, quer os chamados de esquerda, quer os de direita etc., como os
não-oficiais, os sintomas têm sido sempre os mesmos, isto é, apresentam-se os
mesmos sentimentos. Sentimentos esses que são sempre manifestos em forma de
pessimismo. Discutem o tempo todo acerca de dificuldades de implantar uma nova
ideia, mas nunca procuram elaborá-la.
É fato que deveríamos ter sempre em
mente, que antes de discutirmos acerca das dificuldades que possamos deparar
pela frente, em relação a um determinado projeto, teríamos que, de antemão,
elaborar a nova ideia, que teria naturalmente por prerrogativa sobrepujar ou
suplantar a ideia ou conceito vigente, e, além disso, procurarmos buscar para
ela o maior número de simpatizantes possível. Entretanto, isso nunca ocorre. E
isso não ocorre não é por acaso, mas sim, em virtude do modelo imposto pelos
grupos, ocultamente, dominantes.
Infelizmente, as coisas se dão
assim mesmo. Os trabalhos sérios já nascem póstumos, pois, só as gerações do
futuro os compreendem claramente.
Pensamos que é de extrema
necessidade prepararmos, desde cedo, as bases sólidas da formação de um povo,
para que, desse modo, possamos erguer um grande edifício duradouro, porque, são
nessas bases que reside a formação do homem, sobretudo, quando nos referimos a
formação do caráter, entendendo este último termo em seu sentido original, isto
é, como a maneira de ser própria do homem, o seu lugar, a sua permanência, em
outras palavras: o ethos.
A experiência narrada por um
professor, tida em sala de aula, tornou-se muito esclarecedora e, ao mesmo tempo, também
desoladora. Numa certa ocasião, segundo ele, uma aluna – resistindo a todo
custo a entregar-se ao processo de conhecimento – questionou o seu método de
trabalho, e, insatisfeita por não ter tido seus caprichos atendidos, disse-lhe
que iria à direção da escola reivindicar os seus direitos. Diante de tal
atitude, tal professor calou-se e começou então a se questionar: “Será que isso
é o resultado da escola, tão propalada, a todos os cantos, como modelo de
escola democrática, a qual só enfatiza direitos, direitos e deveres nada? Como
a referida aluna reivindicará os seus direitos, sem que, antes, ela tenha
cumprido com os seus deveres? Por acaso, ela se esforçou em cumprir com todas
as tarefas propostas em sala de aula?, e outras?”
Tal professor questionou-se muito.
Depois de analisar a questão por meio de vários aspectos, concluiu que não
poderia aprovar o modelo de educação, cujos princípios estão assentados numa
base negativista, que tem por objetivo somente tecer críticas demolidoras sobre
todos os valores construídos ao longo de várias gerações.
Se
analisarmos a questão por outro ângulo, concluiremos que “o espírito humano não
consegue galgar alturas sem passar por degraus; para cada passo ascendente,
necessita ele do fundamento do passado, naquele sentido lato só na cultura
geral pode transparecer. Apenas uma pequena parte do pensamento universal
repousa sobre o conhecimento próprio; a maior parte é devido às experiências de
épocas precedentes. O nível geral de cultura mune o indivíduo sem que disso ele
se perceba, de uma tal riqueza de conhecimentos preliminares, que, assim
preparado, ele mais facilmente, seguirá o seu caminho.”
O povo que não possui uma cultura
própria e nem se esforça para possuí-la, as bases do seu trabalho espiritual
sempre serão ditadas por outros povos. Seu intelecto desenvolver-se-á sempre
por influências do mundo civilizado que o cerca. Um povo, para se desenvolver
ao máximo, necessita de uma organização que se repouse “sobre o princípio de
sacrifício que cada indivíduo faz de sua opinião e de seus interesses pessoais
em proveito de uma pluralidade de criaturas”, ao estilo da concepção da polis
grega. A cidade ou Estado, dentro da concepção grega, não tem autoridade sobre
o povo – o seu território exerce um papel insignificante –, pois, o Estado é um
contingente e o povo é o seu conteúdo. O que vale, portanto, é a concepção de,
digamos, brasileiros ou, como dizia Helena de Teodectes: “Eu sou grega”
–, ela que descendia tanto do lado paterno, como do lado materno de deuses.
Assim, ser brasileiro seria, necessariamente, pensar em nome de uma existência
cultural, a que cada cidadão deveria zelar e defendê-la até as últimas
consequências. Porém, essa concepção teria que ser inoculada na mente de cada
indivíduo, desde seu nascimento.
E,
é isso que poderíamos chamar de abnegação, ou seja, quando “a coroação de todo
espírito reside no sacrifício da própria vida individual, em prol da existência
coletiva.” Daí o termo “cumprimento do dever” significar não se contentar o
indivíduo somente consigo, mas em procurar servir à coletividade.
A cultura da mediocridade e da
submissão, nos dias de hoje, por imposição de interesses maiores, tem ocupado
um lugar de grande destaque no seio dos povos subdesenvolvidos, tanto no que se
refere às criações espirituais, como no campo material. E é, por conta disso,
que vimos, de maneira sistemática, examinando essa questão a fundo. Ao lermos,
por exemplo, uma das obras do tão enaltecido educador e pedagogo Paulo Freire –
Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa –,
sentimo-nos muito constrangidos diante da insistente apologia que ele faz da
humildade.
Pensamos,
no entanto, que uma pessoa que pretenda realizar um trabalho crítico e
consciente, não ficaria bem nela, em hipótese alguma, fazer a apologia da
humildade, visto que, como já dizia Homero, poeta grego, que viveu por volta do
século X a.C., que a humildade não ficaria bem em um sábio. E de fato não fica
bem mesmo. Isto porque, a palavra grega tapeinós – a qual se traduz para
a língua portuguesa por humilde – quer dizer baixo, pouco elevado, mesquinho,
pequenez, ou melhor, pequenez de espírito. Vê-se que, em sua origem, esse termo
é usado em sentido negativo e, no entanto, o usamos atualmente positivamente.
Mas, por que razão? Simplesmente, porque Tomás de Aquino deu-lhe um significado
adverso daquele em que os gregos o empregavam. Aquino apropriou-se do termo
aristotélico megalopsiquia (magnânimo em latim), isto é, grande de
espírito, e atribuiu-lhe à palavra humilde. Nesse sentido, para Tomás de
Aquino, grande é aquele que ao apanhar em uma das faces do rosto oferece a
outra. Quer dizer: a grandeza de suportar o sofrimento, que somente os pequenos
de espírito estão sujeitos em sua totalidade. Em outras palavras, este
comportamento não é nada mais, nada menos que a moral dos escravos, como
acentua Nietzsche, em uma de suas obras.
Ora,
não há nada mais pequeno do que a sujeição, a submissão. E daí, nos
perguntamos: como podemos compactuar com as ideias de FREIRE, em sua
totalidade, já que a substancialidade de seu discurso é amparada nessas
qualidades referidas acima e, portanto, um tanto incoerente com sua proposta, a
qual consiste em denunciar a dicotomia dominante/dominado.
Voltando, então, ao assunto da
referida reunião… Quando nela citamos a Europa, como exemplo de países que
adotam, em suas grades curriculares, o ensino da disciplina Filosofia como
obrigatório, desde o equivalente ao Ensino Fundamental nosso – e por conta
disso gerou um mal-estar entre os participantes da reunião –, não tivemos, é
claro, a menor intenção de copiá-los, até porque, a Filosofia não é, em
hipótese alguma, uma prerrogativa daqueles países europeus, tais como, a
Alemanha e a França. A Filosofia nasceu na Grécia Antiga e, portanto, ela é
originariamente grega. O que quisemos dizer é que a Europa sabe muito bem o que
é bom para o ser humano, e, se os europeus estão desenvolvidos como tal, não é
por acaso, mas justamente graças a esse tipo de pensamento que tanto eles
defendem. Os europeus não fazem somente uso dessa maneira de pensar, que nasceu
na Grécia Antiga, como também procuram acolher ideias de outros povos, tais
como as dos brasileiros, quando julgam necessárias. Sabemos que os alemães citam
autores brasileiros, que muitas vezes, são absolutamente desconhecidos entre
nós. Mas, se pensarmos a Filosofia como algo que traz em si mesma uma certa
identidade como, por exemplo, um produto químico, que ao entrar em contato com
outras substâncias as contamina, ou, uma doutrina, que tem por objetivo fazer
seus seguidores enxergarem o mundo a partir de seu ponto de vista,
evidentemente, que estaríamos de pleno acordo de não os imitar. E é
justamente em razão disso que estamos convencidos de que o que nos permite
vermos todas as cores é exatamente a natureza incolor dos nossos nervos
ópticos, pois se eles possuíssem uma certa coloração, por exemplo, a cor
avermelhada, com certeza, veríamos o mundo inteiramente vermelho.
E
nesse aspecto, não poderíamos também deixar de abordar um outro ponto.
Referimo-nos aqui à Filosofia propriamente dita e o tratamento que a ela se
dispensa. Costuma-se polemizar em torno dela, na tentativa de qualificá-la como
um saber desinteressado. Ora, é preciso, no entanto, que entendamos o que
queremos dizer com o termo desinteressado. Desinteressado, em alemão, se diz
“selbstlos”, o que, ao pé da letra, significa “sem si mesmo”, isto é, para
Nietzsche, sem um eu, sem um ser próprio.
Nesse
sentido, gostaríamos de acrescentar que as coisas devem ser entendidas de
acordo com a sua verdadeira natureza. Dizer que a Filosofia é desinteressada,
no sentido em que foi explanado o termo selbstlos, mencionado acima,
seria, no mínimo um contrassenso, pois, toda filosofia é própria do ser humano
e, portanto, um filósofo não “faz” filosofia desencarnado, sem o seu eu. Nessa
acepção, a Filosofia é interessada. Mas, por outro lado, devemos entender que
quando afirmamos que a Filosofia é desinteressada, queremos com isso dizer que
ela repousa sobre um idealismo, cujo princípio contrapõe qualquer forma de
egoísmo, e visa, acima de tudo, aos interesses humanos no seu sentido mais
rigoroso possível. Assim sendo, a Filosofia transcende o que de há de mais
mesquinho, mais pequenino e demasiadamente humano, para buscar e defender o que
há de mais magno – em sentido rigoroso –, nobilitante e aristocrático,
entendendo esta última palavra em conformidade com o seu étimo, como
significando bom, excelente, e daí a alma distinta e nobre, no sentido de alma
superior. “Por esta razão, os nobres são chamados de ‘poderosos’, ‘capitães’,
ou segundo os sinais mais visíveis desta superioridade, por exemplo, os ‘ricos’,
os ‘proprietários’ etc.” – NIETZSCHE. Genealogia da moral.
Assim compreendido, mais uma vez
fica claro que a Filosofia, em sua essência, visa ao que há de mais excelso da
espécie humana, ou seja, tudo aquilo que sobrepuja toda forma de pensar que
tenha por finalidade privilegiar o que há de mais baixo na natureza humana.
Portanto,
de acordo com o exposto acima, não há, absolutamente, nada em contradição com o
pensamento de Nietzsche.
Além
disso, podemos concluir que um povo que, por natureza, possua o germe da
grandeza, do que há mais elevado no mundo, no que se refere aos feitos humanos,
jamais medirá esforços para atingir seu objetivo. E é, justamente, por esta
razão que estamos, absolutamente, convencidos de que, se há povos desenvolvidos
e subdesenvolvidos sobre a face da Terra, não é por conta da dicotomia dominante/dominado,
mas, porque os subdesenvolvidos são compostos de elementos carentes,
geneticamente, de uma espécie de chama que os impulsione aos grandes feitos
humanos e do glorioso desejo de vitória.
Daí,
vermos que fica claro, também, para nós, que o pessimismo e o negativismo não
são senão uma forma desoladora de justificar o fracasso hereditário de
determinadas pessoas ou, até mesmo, de povos inteiros, pois é muito fácil
apontar dificuldades em tudo – porque as dificuldades se dão sobre algo
existente na atualidade – do que apresentar novas ideias ou uma nova concepção
de mundo. Eis a razão da proliferação, em grande escala, atualmente, dos
chamados filósofos da linguagem, pois não necessitam adentrar mares para a
conquista de um novo mundo, mas apenas analisar um mundo já existente e pronto.
Afinal
de contas, o que será do mundo quando o último desses homens inventivos se
extinguir? Somente com a redução deles, estamos presenciando um caminhar para
uma dominação global… Não devemos perder de vista que já há muito esforços
desprendidos para sufocar os homens de espírito elevado, porque, por natureza
são indóceis e, consequentemente, incomodam os que apostam na manutenção do
atual estado de coisas.