segunda-feira, 14 de outubro de 2024


DEUS É SIMPLESMENTE UM ENTE DE RAZÃO

                                                                                                   Syro Cabral de Oliveira

                        Quando afirmamos em nosso texto A magnitude e os atributos da divindade que Deus é pura inteligência ou razão não recorremos a nenhuma arbitrariedade ou qualquer petição de princípio para justificarmos tal tipo de asserção, uma vez que isso está exposto claramente em uma das obras caras da sustentação da fé cristã. O Evangelho segundo João inicia-se assim: 1 Ἐν ἀρχῇ ἦν λόγος, καὶ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁλόγος. 2 οὗτος ἦν ἐν ἀρχῇ πρὸς τὸν θεόν... “1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e Deus era o Verbo. 2 Ele estava no princípio com Deus...” O termo grego arché, que normalmente se traduz por princípio, necessita de alguns esclarecimentos. Assim, vejamos como ele pode ser entendido com maior clareza. Arché significa princípio não apenas no sentido de começo, de início no tempo, mas, rigorosamente, no sentido de fundamento, base, causa ou, como diz Platão, no Fedro, 245d, “princípio (ὰρχή) é alguma coisa de não engendrado, pois é forçosamente a partir de um princípio que vem à existência de tudo o que acontece, ao passo que um princípio não provém de nada. Se, com efeito, um princípio viesse a existir a partir de alguma coisa, não seria a partir de um princípio que viria a existir o que existe”. Ou seja, princípio (arché) é aquilo de que todas as coisas são derivadas, mas ele mesmo não pode ser derivado e nem deduzido de nada, pois, se assim não o fosse, haveria princípio do princípio e assim ad infinitum. É nesse sentido que se diz, acertadamente – quando se fala em remédio –, princípio ativo. Pois é justamente o princípio ativo que determina o que é tal ou tal remédio, ou seja, sua essência. É por isso que alguns genéricos não são tão eficazes quanto os remédios de marca, porque, muitas vezes, aqueles contêm uma menor porção do princípio ativo.

                         Outro termo grego, que merece aqui também a nossa inteira atenção, é o logos. Logos possui vários significados, entre tantos, os mais proeminentes são razão, inteligência, pensamento reflexivo, palavra etc., embora tenha-se optado por traduzi-lo, no referido Evangelho, por Verbo. Porém, isso pouco importa, contanto que se atente pelo seu sentido etimológico, já que os gregos antigos faziam dele uma verdadeira ferramenta. Ferramenta esta – se assim podemos chamá-lo – de uso constante, fazendo dela um verdadeiro guia para o bem agir. Como diz Heráclito de Éfeso, em um de seus fragmentos “o logos é comum a todos e governa todas as coisas”. Daí se conclui que o logos é a inteligência universal. E Parmênides de Eleia, praticamente no mesmo sentido, afirma que somente o logos é capaz de decidir contravertida tese, seguindo “um único caminho: o ser é”. Era, evidentemente, um uso abstrato do mais alto nível que se possa imaginar. Isso não oferece nenhuma dúvida a um verdadeiro amante da sabedoria. Isso, também, foi tão evidente que há quem diga que o filósofo grego Sócrates foi o precursor de Jesus de Nazaré ou de Belém – o Хριστός, o Ungido do Senhor – como muitos o têm.

                         Se até então, o logos possuía um caráter inteiramente abstrato, imaterial e universal, com o suposto nascimento de Jesus, ele perde esse caráter de universalidade para agora encarnar em um ser material, entrando assim em decadência. A divindade – a razão, como já dizíamos – materializou-se. É com toda justiça que alguns protestantes dizem que Jesus e Deus são uma única e mesma coisa. Porque, analisando todo o nosso percurso, se conclui claramente que Jesus é a razão encarnada. O que era no início de acesso a todos, tornou-se, metaforicamente falando, acessível apenas a algumas pessoas que se entregaram como seus seguidores.

                         Para que possamos deixar as coisas bem mais claras, é preciso, no entanto, que entendamos que há duas realidades bem distintas, mas, ao mesmo tempo, complementares. Uma realidade intramental e uma outra extramental. Assim podemos conceber a existência de todos os entes existentes tanto em uma realidade intramental e também em uma outra conhecida por extramental. O que importa para nós aqui é fazermos a clara distinção entre aquela realidade e esta. Se alguém nos perguntasse se acreditamos nos entes matemáticos, diríamos a esse inquiridor que essa questão está mal formulada. Deveria sim nos perguntar se os entes matemáticos existem. Neste caso, diríamos que sim, mas logo a seguir faríamos um certo esclarecimento. Os entes matemáticos existem, mas não empiricamente, ou seja, em uma realidade extramental, como uma rosa, uma fruta, uma pessoa etc., que se possa conhecer tangivelmente, isto é, que vemos, tocamos, algo que conhecemos pelos sentidos. Para nos tentar retorquir, diria o nosso crente: “Mas, eu estou vendo os números e as figuras geométricas grafados na lousa”. De pronto, perguntaríamos ao nosso crente se ele tem fome, caso ele nos responda positivamente, rapidamente tomaríamos de alguns instrumentos de pintura e pintaríamos uma fruta na lousa e perguntá-lo-íamos se ele comeria a fruta que foi pintada na lousa. Estamos certo de que ele diria que não, e, possivelmente, se justificaria dizendo que está vendo ali, na lousa é simplesmente um desenho ou uma representação de uma fruta; logo, não é uma fruta real, tangível. É tudo que precisaríamos de ouvir de o nosso bom crente. “Pois é”, diríamos nós, “os números que vós dissestes que estáveis vendo, na verdade, não são números reais e tangíveis, como vós concluístes acerca da fruta. Esses entes matemáticos que vós afirmastes que estáveis vendo são na realidade uma representação de um ente mental, que existe apenas em nossas mentes, do mesmo modo que existem mula sem-cabeça, saci Pererê, unicórnio, Deus e outros entes mentais. Se todos os homens morressem, esses entes também morreriam juntos com os homens, pois sua existência se dá simplesmente no âmbito do mundo intramental. Ou seja, são entes de razão.”

                         Mas, como nosso bom crente não se contenta com as justificativas racionais, ele afirma que partimos de uma premissa falsa para tentarmos chegar a uma suposta verdade. Entretanto, para provar a existência de Deus, ele lança mão da crença, ou seja, recorre a uma ideia não fundamentada com a intenção de fundamentar uma outra ideia. Seria o mesmo que se se quisesse construir um edifício sem que se tivesse que construir sua base.

                         Enveredar por meio de um caminho que leva a uma suposta verdade, simplesmente porque essa dita verdade aparece em um livro consagrado pela tradição e repetida incessantemente por uma suposta autoridade, seria naturalmente um absurdo sem precedente. A autoridade verdadeira não pode se dar de fora para dentro, arbitrariamente, mas, ao contrário, de dentro para fora. Não é o diploma que dignifica o sábio, mas, ao contrário, é o sábio que deve dignificar o diploma. O fato de um livro sagrado estabelecer que há um ser superior, criador de todas as coisas, sem que se demonstre a sua real existência, faz com que todo o sistema emanado dos princípios desse ser se torne absolutamente falso, sem consistência, fundado simplesmente em uma crença.

                         Não há uma concepção igualmente universal para todas as pessoas e todos os povos, como alguns crentes sustentam, acerca de Deus. Há povos que concebem Deus uno como um ente transcendente e que existe por si mesmo em uma instância separada, com todos os poderes, conhecimentos e universalmente presente em todos os lugares ao mesmo tempo, como o sol que ilumina uma região inteira simultaneamente ou um manto que cobre várias pessoas ao mesmo tempo; há povos que concebe Deuses imanentemente e convivendo entre os humanos, e há outros ainda que concebem Deus apenas como uma energia emanada dos próprios seres humanos, análogo ao perfume das rosas. Sem contar que há uma variedade enorme de formas diferentes para as divindades em relação aos povos, ao passo que o sentimento de imortalidade da alma se manifesta igualmente em todas as culturas, como já afirmamos em nosso texto Sentimento de imortalidade da  alma.