DEUS É SIMPLESMENTE UM ENTE DE RAZÃO
Syro Cabral de Oliveira
Quando
afirmamos em nosso texto A magnitude e os atributos da divindade que
Deus é pura inteligência ou razão não recorremos a nenhuma arbitrariedade ou
qualquer petição de princípio para justificarmos tal tipo de asserção, uma vez
que isso está exposto claramente em uma das obras caras da sustentação da fé
cristã. O Evangelho segundo João inicia-se assim: 1 Ἐν ἀρχῇ ἦν ὁ λόγος, καὶ ὁ λόγος ἦν πρὸς τὸν θεόν, καὶ θεὸς ἦν ὁλόγος. 2 οὗτος ἦν ἐν ἀρχῇ πρὸς τὸν θεόν...
“1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e Deus era o Verbo. 2
Ele estava no princípio com Deus...” O termo grego arché, que
normalmente se traduz por princípio, necessita de alguns esclarecimentos. Assim,
vejamos como ele pode ser entendido com maior clareza. Arché significa
princípio não apenas no sentido de começo, de início no tempo, mas,
rigorosamente, no sentido de fundamento, base, causa ou, como diz Platão, no Fedro,
245d, “princípio (ὰρχή) é alguma coisa de não
engendrado, pois é forçosamente a partir de um princípio que vem à existência
de tudo o que acontece, ao passo que um princípio não provém de nada. Se, com
efeito, um princípio viesse a existir a partir de alguma coisa, não seria a
partir de um princípio que viria a existir o que existe”. Ou seja,
princípio (arché) é aquilo de que todas as coisas são derivadas, mas ele
mesmo não pode ser derivado e nem deduzido de nada, pois, se assim não o fosse,
haveria princípio do princípio e assim ad infinitum. É nesse
sentido que se diz, acertadamente – quando se fala em remédio –, princípio
ativo. Pois é justamente o princípio ativo que determina o que é tal ou tal
remédio, ou seja, sua essência. É por isso que alguns genéricos não são tão
eficazes quanto os remédios de marca, porque, muitas vezes, aqueles contêm uma
menor porção do princípio ativo.
Outro
termo grego, que merece aqui também a nossa inteira atenção, é o logos.
Logos possui vários significados, entre tantos, os mais proeminentes são
razão, inteligência, pensamento reflexivo, palavra etc., embora tenha-se optado
por traduzi-lo, no referido Evangelho, por Verbo. Porém, isso pouco importa,
contanto que se atente pelo seu sentido etimológico, já que os gregos antigos
faziam dele uma verdadeira ferramenta. Ferramenta esta – se assim podemos
chamá-lo – de uso constante, fazendo dela um verdadeiro guia para o bem agir.
Como diz Heráclito de Éfeso, em um de seus fragmentos “o logos é comum a
todos e governa todas as coisas”. Daí se conclui que o logos é a
inteligência universal. E Parmênides de Eleia, praticamente no mesmo sentido,
afirma que somente o logos é capaz de decidir contravertida tese,
seguindo “um único caminho: o ser é”. Era, evidentemente, um uso abstrato do
mais alto nível que se possa imaginar. Isso não oferece nenhuma dúvida a um
verdadeiro amante da sabedoria. Isso, também, foi tão evidente que há quem diga
que o filósofo grego Sócrates foi o precursor de Jesus de Nazaré ou de Belém –
o Хριστός, o Ungido do Senhor
– como muitos o têm.
Se
até então, o logos possuía um caráter inteiramente abstrato, imaterial e
universal, com o suposto nascimento de Jesus, ele perde esse caráter de
universalidade para agora encarnar em um ser material, entrando assim em
decadência. A divindade – a razão, como já dizíamos – materializou-se. É com
toda justiça que alguns protestantes dizem que Jesus e Deus são uma única e
mesma coisa. Porque, analisando todo o nosso percurso, se conclui claramente
que Jesus é a razão encarnada. O que era no início de acesso a todos,
tornou-se, metaforicamente falando, acessível apenas a algumas pessoas que se
entregaram como seus seguidores.
Para
que possamos deixar as coisas bem mais claras, é preciso, no entanto, que
entendamos que há duas realidades bem distintas, mas, ao mesmo tempo, complementares.
Uma realidade intramental e uma outra extramental. Assim podemos conceber a
existência de todos os entes existentes tanto em uma realidade intramental e
também em uma outra conhecida por extramental. O que importa para nós aqui é
fazermos a clara distinção entre aquela realidade e esta. Se alguém nos
perguntasse se acreditamos nos entes matemáticos, diríamos a esse inquiridor
que essa questão está mal formulada. Deveria sim nos perguntar se os entes
matemáticos existem. Neste caso, diríamos que sim, mas logo a seguir faríamos
um certo esclarecimento. Os entes matemáticos existem, mas não empiricamente,
ou seja, em uma realidade extramental, como uma rosa, uma fruta, uma pessoa etc.,
que se possa conhecer tangivelmente, isto é, que vemos, tocamos, algo que
conhecemos pelos sentidos. Para nos tentar retorquir, diria o nosso crente:
“Mas, eu estou vendo os números e as figuras geométricas grafados na lousa”. De
pronto, perguntaríamos ao nosso crente se ele tem fome, caso ele nos responda
positivamente, rapidamente tomaríamos de alguns instrumentos de pintura e
pintaríamos uma fruta na lousa e perguntá-lo-íamos se ele comeria a fruta que
foi pintada na lousa. Estamos certo de que ele diria que não, e, possivelmente,
se justificaria dizendo que está vendo ali, na lousa é simplesmente um desenho
ou uma representação de uma fruta; logo, não é uma fruta real, tangível. É tudo
que precisaríamos de ouvir de o nosso bom crente. “Pois é”, diríamos nós, “os
números que vós dissestes que estáveis vendo, na verdade, não são números reais
e tangíveis, como vós concluístes acerca da fruta. Esses entes matemáticos que
vós afirmastes que estáveis vendo são na realidade uma representação de um ente
mental, que existe apenas em nossas mentes, do mesmo modo que existem mula
sem-cabeça, saci Pererê, unicórnio, Deus e outros entes mentais. Se todos os
homens morressem, esses entes também morreriam juntos com os homens, pois sua
existência se dá simplesmente no âmbito do mundo intramental. Ou seja, são
entes de razão.”
Mas,
como nosso bom crente não se contenta com as justificativas racionais, ele
afirma que partimos de uma premissa falsa para tentarmos chegar a uma suposta
verdade. Entretanto, para provar a existência de Deus, ele lança mão da crença,
ou seja, recorre a uma ideia não fundamentada com a intenção de fundamentar uma
outra ideia. Seria o mesmo que se se quisesse construir um edifício sem que se
tivesse que construir sua base.
Enveredar
por meio de um caminho que leva a uma suposta verdade, simplesmente porque essa
dita verdade aparece em um livro consagrado pela tradição e repetida
incessantemente por uma suposta autoridade, seria naturalmente um absurdo sem
precedente. A autoridade verdadeira não pode se dar de fora para dentro,
arbitrariamente, mas, ao contrário, de dentro para fora. Não é o diploma que
dignifica o sábio, mas, ao contrário, é o sábio que deve dignificar o diploma. O
fato de um livro sagrado estabelecer que há um ser superior, criador de todas
as coisas, sem que se demonstre a sua real existência, faz com que todo o
sistema emanado dos princípios desse ser se torne absolutamente falso, sem
consistência, fundado simplesmente em uma crença.
Não
há uma concepção igualmente universal para todas as pessoas e todos os povos,
como alguns crentes sustentam, acerca de Deus. Há povos que concebem Deus uno
como um ente transcendente e que existe por si mesmo em uma instância separada,
com todos os poderes, conhecimentos e universalmente presente em todos os
lugares ao mesmo tempo, como o sol que ilumina uma região inteira
simultaneamente ou um manto que cobre várias pessoas ao mesmo tempo; há povos
que concebe Deuses imanentemente e convivendo entre os humanos, e há outros
ainda que concebem Deus apenas como uma energia emanada dos próprios seres
humanos, análogo ao perfume das rosas. Sem contar que há uma variedade enorme
de formas diferentes para as divindades em relação aos povos, ao passo que o
sentimento de imortalidade da alma se manifesta igualmente em todas as
culturas, como já afirmamos em nosso texto Sentimento de imortalidade da alma.