CONHECER: UMA PREPARAÇÃO PARA UM
NOVO OLHAR
Syro
Cabral de Oliveira
O
ensino da filosofia na formação do homem ou, especificamente em nosso caso
aqui, dos jovens e adultos, no ensino médio, objetiva-se, em um primeiro
momento, fazer com que esses estudantes familiarizem-se com a filosofia e ao
mesmo tempo desfazer a visão preconceituosa, já arraigada no senso comum, que
associa essa área do saber a uma simples “viagem” ou talvez até mesmo a uma
espécie de “embriaguez”, em seu sentido vulgar, e, por outro lado, mostrar que
ela, a filosofia, é um saber muito importante para nortear a vida do ser humano
em seu dia a dia. Assim, o saber filosófico tem por objetivo tornar o homem um
senhor de si, um ser autônomo que saiba guiar-se a si mesmo, sem depender de um
outro homem. Logo, o saber filosófico
tem por objetivo último libertar o homem de todas as amarras que o prendam no
seu dia a dia, dos mitos e das crenças infundadas etc. Com isso, o homem vai
perceber que não há nenhum saber já pronto e acabado, mas que, na realidade,
todo saber está e estará sempre por se fazer.
Tomar
o mundo como algo dado, como algo já pronto e acabado seria, sem sombra de
dúvida, tentar olhar para o mundo com um olhar do senso comum, ou como um prisioneiro
de uma caverna. Ora, eis o objetivo maior da filosofia, ou seja, o de
tentar romper com esse modelo que tem por finalidade única a de fazer com
que as pessoas tornem ingênuas e aceitem
verdades prontas, sem que percebam que são verdades construídas, a partir de
determinados pontos de vista, e logo impostas. Fazer com que o ser humano
descarte as suas lentes pigmentadas é o nosso compromisso maior e é também a
nossa grande missão.
Por
isso, devemos deixar bem claro que a filosofia não é uma doutrina, mas um tipo
de saber neutro que tem por finalidade fazer com que o homem não projete os
seus valores culturais sobre a realidade, mas tentar levá-lo a ver as coisas
tais como elas são de fato. Assim, o homem que percebe essa verdadeira natureza
da filosofia torna-se, muito rápido, um ser apaixonado, não por acaso, mas pela
essência da etimologia da própria palavra filosofia, a qual foi cunhada por Pitágoras de Samos – filósofo grego que
nasceu em 580 e morreu em 500 anos a.C. – há alguns anos posteriores ao
nascimento desse novo modo de pensar e de ver o mundo, inaugurado por Tales de
Mileto (624-546 anos a.C.). Desse modo, o termo filosofia se compõe de duas
partes: philos e sophia. Sendo que philos significa amor,
amizade, amigo, e sophia, por sua vez, quer dizer sabedoria, dando
assim, a partir da junção dos dois termos, o significado etimológico “amor pela
sabedoria” e o filósofo sendo aquele que ama a sabedoria ou, ainda, o amigo ou
o amante da sabedoria.
Como
o maior objetivo desde seu nascimento foi o de buscar uma explicação bem
fundamentada para a totalidade do universo, o saber filosófico se distingue do
saber religioso, visto que o primeiro está embasado na razão, isto é, em uma
argumentação bem ordenada e que procura explicar a realidade de todas as coisas
a partir de suas causas, seus princípios, apontando os porquês, fundamentando e
demonstrando parte por parte de todas as suas etapas; ao passo que o saber
religioso se prende a apenas em explicações baseadas em crenças e fé. Aqui, não
há necessidade de justificativas, basta aceitar as explicações exatamente como
são dadas ou narradas pelas chamadas autoridades do âmbito religioso.
A
filosofia não nasceu do acaso, pois é da essência humana o ato de filosofar,
embora poucos percebam isso. Se fôssemos definir filosofia rapidamente,
poderíamos dizer que ela é um grande questionamento. Ora, questionar é da
natureza humana. A primeira coisa que a
criança faz, ao começar se relacionar com o mundo, é questionar seus pais e
todas as pessoas que se encontram a sua volta. Assim, o homem, desde um passado
muito longínquo, procurou a dar uma explicação para as suas angústias, seus
conflitos, suas dúvidas, enfim para todas as coisas que o envolvem e também
obter uma resposta para os seus questionamentos.
O
primeiro modelo de explicação da realidade foi baseado no mito, conhecido como
modelo cosmogônico. O mito é uma narrativa que se baseia, não em explicação bem
fundamentada e conceitual, mas em crenças, valores culturais e, principalmente,
no sobrenatural. O mito não tem nenhum compromisso com a verdade, apenas
procura explicar ou narrar todos os eventos, naturais ou não, sem qualquer
justificativa ou fundamentação coerente. Esse modelo prevaleceu como o único
modelo explicativo da realidade, na Grécia antiga, até, aproximadamente, no
século VII a.C.
A
Grécia antiga era constituída de várias polis, ou seja, cidades-estados,
mas era unida através de sua língua, cujos povos da magna Grécia dominavam bem.
Seus valores culturais eram difundidos através dos seus poetas, tais como
Homero, que viveu por volta do século X a.C. e Hesíodo, por volta do século
VIII a.C., chamados aedos, cujas obras eram divulgadas através dos rapsodos
– espécie de repórteres itinerante da
época – que declamavam os grandes feitos heroicos entre as pessoas do povo em
todos os lugares daquele mundo antigo.
Em
virtude de o mito grego ter já em si uma certa coerência interna, por esta
razão, ele já apontava para um elemento primordial – como bem mostra Hesíodo em
sua magnífica obra A Teogonia, através de suas narrativas de que todos os
elementos da natureza originaram do Caos – o qual, de um certo
modo, facultou o surgimento da filosofia a partir do século VII a.C. A partir
de então começa-se a romper com as explicações baseadas no mito e introduz-se
um modelo de explicação baseado no logos (razão), cuja finalidade é
explicar todas as coisas a partir de um elemento primordial. Inaugura-se então
um modelo explicativo da realidade denominado de cosmológico. Abandonam-se as
crenças e o sobrenatural e procura-se dar uma explicação para o universo de
maneira bem fundamentada. Este modelo foi inaugurado por Tales de Mileto, cujo
elemento primordial é a água. Para ele, todas as coisas são derivadas da água.
Abrem-se, assim, a partir desse instante, todas as portas para o pensamento
científico. Com o modelo racional inaugurado, surge uma nova nomenclatura,
cujas palavras passam agora a terminar em “logia”, termo derivado do logos.
Aparecem
então várias escolas filosóficas que, posteriormente, vão ser denominadas de
escolas filosóficas pré-socráticas, em virtude da grande influência do filósofo
grego de Atenas Sócrates (469-399 anos a.C.), mestre de Platão (428-347 anos
a.C.).
As
principais escolas são a Jônica, fundada em uma colônia grega chamada Jônia,
que ficava situada na costa ocidental da Asia Menor – hoje região da Turquia –
e, na sequência, a escola Pitagórica, fundada por Pitágoras de Samos, cujo
elemento primordial são os números; a Eleática, cujo expoente máximo é o grande
pensador Parmênides de Eleia, tendo por elemento primordial o ser, e
finalmente a pluralista, que admitia não apenas um elemento único que desse
origem a todas as coisas, mas a reunião de todos os elementos (água, ar, fogo e
terra).
Heráclito
de Éfeso, da escola Jônica, dizia que um homem não passa duas vezes em um mesmo
rio, ou seja, era um grande defensor do devir. Para ele, todas as coisas estão
em fluxo perpétuo. Por isso, os jônicos defendiam a tese do mobilismo
universal. Seu oponente são os
eleáticos, sobretudo Parmênides de Eleia que o acusa de conceder demasiada
importância aos dados fornecidos pelos sentidos. Parmênides dizia que o
movimento é uma ilusão e defendia a tese do imobilismo universal. Afirmava: “O
ser é e o não-ser não é”, sentença que vai dar base para todos os tratados de
lógica surgidos posteriormente.
Quase
todas essas escolas filosóficas concentraram as suas investigações basicamente
na physis, termo grego que se traduz, normalmente, por natureza. O
conceito de natureza, para um grego antigo, difere muito de nosso conceito de
natureza moderno. Para um grego antigo, natureza é tudo aquilo que brota,
emerge, surge etc. por si mesmo. Não há nenhuma força por trás da natureza
fazendo com que as coisas surjam. A ação de fazer todas as coisas surgirem é a
própria natureza.
As
investigações filosóficas, na Grécia clássica, a partir de Sócrates, dão uma
nova guinada e ganha um outro rumo. Agora, elas se voltam para o homem.
Inaugura-se um novo modelo de investigação, denominado de antropológico.
O homem torna-se o objeto central das investigações. Mas Sócrates prima pela
essência do homem, ao passo que os sofistas –
professores ambulantes, que ensinavam a arte da eloquência – visavam o
homem individual, fazendo deste o seu objeto de conhecimento para alcançar
sucesso pessoal. Desse modo, em face das discussões travadas em praça pública
– ágora –, entre sofistas e
filósofos, a filosofia atinge o seu coroamento, na Grécia antiga, com os três
grandes filósofos, dois atenienses, Sócrates e Platão, e um estagirita,
Aristóteles.
Assim,
como vimos acima, a filosofia veio, ao logo desses dois mil e setecentos anos,
tecendo uma nova maneira do homem se ver e ver o universo e, além disso,
tentando romper com determinados pontos de vista e dogmas que em nada
contribuem para o avanço do ser humano. Logo, filosofar não é se colocar como o
dono da verdade, mas, pelo contrário, é se colocar na condição de que nada se
sabe, pois assim, novas portas e novos horizontes vão se abrir. Desse modo,
fica desde já aqui um convite para que nos despertemos para um novo pensar, um
pensar que procura pensar o próprio pensar. Assim é o pensador, isto é, aquele
que pensa pensamento.