segunda-feira, 19 de agosto de 2024

 

CONHECER: UMA PREPARAÇÃO PARA UM NOVO OLHAR

Syro Cabral de Oliveira

 

            O ensino da filosofia na formação do homem ou, especificamente em nosso caso aqui, dos jovens e adultos, no ensino médio, objetiva-se, em um primeiro momento, fazer com que esses estudantes familiarizem-se com a filosofia e ao mesmo tempo desfazer a visão preconceituosa, já arraigada no senso comum, que associa essa área do saber a uma simples “viagem” ou talvez até mesmo a uma espécie de “embriaguez”, em seu sentido vulgar, e, por outro lado, mostrar que ela, a filosofia, é um saber muito importante para nortear a vida do ser humano em seu dia a dia. Assim, o saber filosófico tem por objetivo tornar o homem um senhor de si, um ser autônomo que saiba guiar-se a si mesmo, sem depender de um outro homem. Logo, o  saber filosófico tem por objetivo último libertar o homem de todas as amarras que o prendam no seu dia a dia, dos mitos e das crenças infundadas etc. Com isso, o homem vai perceber que não há nenhum saber já pronto e acabado, mas que, na realidade, todo saber está e estará sempre por se fazer.

           

            Tomar o mundo como algo dado, como algo já pronto e acabado seria, sem sombra de dúvida, tentar olhar para o mundo com um olhar do senso comum, ou como um prisioneiro de uma caverna. Ora, eis o objetivo maior da filosofia, ou seja, o de tentar romper com esse modelo que tem por finalidade única a de fazer com que  as pessoas tornem ingênuas e aceitem verdades prontas, sem que percebam que são verdades construídas, a partir de determinados pontos de vista, e logo impostas. Fazer com que o ser humano descarte as suas lentes pigmentadas é o nosso compromisso maior e é também a nossa grande missão.

 

            Por isso, devemos deixar bem claro que a filosofia não é uma doutrina, mas um tipo de saber neutro que tem por finalidade fazer com que o homem não projete os seus valores culturais sobre a realidade, mas tentar levá-lo a ver as coisas tais como elas são de fato. Assim, o homem que percebe essa verdadeira natureza da filosofia torna-se, muito rápido, um ser apaixonado, não por acaso, mas pela essência da etimologia da própria palavra filosofia, a qual foi cunhada  por Pitágoras de Samos – filósofo grego que nasceu em 580 e morreu em 500 anos a.C. – há alguns anos posteriores ao nascimento desse novo modo de pensar e de ver o mundo, inaugurado por Tales de Mileto (624-546 anos a.C.). Desse modo, o termo filosofia se compõe de duas partes: philos e sophia. Sendo que philos significa amor, amizade, amigo, e sophia, por sua vez, quer dizer sabedoria, dando assim, a partir da junção dos dois termos, o significado etimológico “amor pela sabedoria” e o filósofo sendo aquele que ama a sabedoria ou, ainda, o amigo ou o amante da sabedoria.

 

            Como o maior objetivo desde seu nascimento foi o de buscar uma explicação bem fundamentada para a totalidade do universo, o saber filosófico se distingue do saber religioso, visto que o primeiro está embasado na razão, isto é, em uma argumentação bem ordenada e que procura explicar a realidade de todas as coisas a partir de suas causas, seus princípios, apontando os porquês, fundamentando e demonstrando parte por parte de todas as suas etapas; ao passo que o saber religioso se prende a apenas em explicações baseadas em crenças e fé. Aqui, não há necessidade de justificativas, basta aceitar as explicações exatamente como são dadas ou narradas pelas chamadas autoridades do âmbito religioso.

 

            A filosofia não nasceu do acaso, pois é da essência humana o ato de filosofar, embora poucos percebam isso. Se fôssemos definir filosofia rapidamente, poderíamos dizer que ela é um grande questionamento. Ora, questionar é da natureza humana. A primeira coisa  que a criança faz, ao começar se relacionar com o mundo, é questionar seus pais e todas as pessoas que se encontram a sua volta. Assim, o homem, desde um passado muito longínquo, procurou a dar uma explicação para as suas angústias, seus conflitos, suas dúvidas, enfim para todas as coisas que o envolvem e também obter uma resposta para os seus questionamentos.

 

            O primeiro modelo de explicação da realidade foi baseado no mito, conhecido como modelo cosmogônico. O mito é uma narrativa que se baseia, não em explicação bem fundamentada e conceitual, mas em crenças, valores culturais e, principalmente, no sobrenatural. O mito não tem nenhum compromisso com a verdade, apenas procura explicar ou narrar todos os eventos, naturais ou não, sem qualquer justificativa ou fundamentação coerente. Esse modelo prevaleceu como o único modelo explicativo da realidade, na Grécia antiga, até, aproximadamente, no século VII a.C.

 

            A Grécia antiga era constituída de várias polis, ou seja, cidades-estados, mas era unida através de sua língua, cujos povos da magna Grécia dominavam bem. Seus valores culturais eram difundidos através dos seus poetas, tais como Homero, que viveu por volta do século X a.C. e Hesíodo, por volta do século VIII a.C., chamados aedos, cujas obras eram divulgadas através dos rapsodos –  espécie de repórteres itinerante da época – que declamavam os grandes feitos heroicos entre as pessoas do povo em todos os lugares daquele mundo antigo.

 

            Em virtude de o mito grego ter já em si uma certa coerência interna, por esta razão, ele já apontava para um elemento primordial – como bem mostra Hesíodo em sua magnífica obra A Teogonia,  através de suas narrativas de que todos os elementos da natureza originaram do Caos o qual, de um certo modo, facultou o surgimento da filosofia a partir do século VII a.C. A partir de então começa-se a romper com as explicações baseadas no mito e introduz-se um modelo de explicação baseado no logos (razão), cuja finalidade é explicar todas as coisas a partir de um elemento primordial. Inaugura-se então um modelo explicativo da realidade denominado de cosmológico. Abandonam-se as crenças e o sobrenatural e procura-se dar uma explicação para o universo de maneira bem fundamentada. Este modelo foi inaugurado por Tales de Mileto, cujo elemento primordial é a água. Para ele, todas as coisas são derivadas da água. Abrem-se, assim, a partir desse instante, todas as portas para o pensamento científico. Com o modelo racional inaugurado, surge uma nova nomenclatura, cujas palavras passam agora a terminar em “logia”, termo derivado do logos.

 

            Aparecem então várias escolas filosóficas que, posteriormente, vão ser denominadas de escolas filosóficas pré-socráticas, em virtude da grande influência do filósofo grego de Atenas Sócrates (469-399 anos a.C.), mestre de Platão (428-347 anos a.C.).

 

            As principais escolas são a Jônica, fundada em uma colônia grega chamada Jônia, que ficava situada na costa ocidental da Asia Menor – hoje região da Turquia – e, na sequência, a escola Pitagórica, fundada por Pitágoras de Samos, cujo elemento primordial são os números; a Eleática, cujo expoente máximo é o grande pensador Parmênides de Eleia, tendo por elemento primordial o ser, e finalmente a pluralista, que admitia não apenas um elemento único que desse origem a todas as coisas, mas a reunião de todos os elementos (água, ar, fogo e terra).

 

            Heráclito de Éfeso, da escola Jônica, dizia que um homem não passa duas vezes em um mesmo rio, ou seja, era um grande defensor do devir. Para ele, todas as coisas estão em fluxo perpétuo. Por isso, os jônicos defendiam a tese do mobilismo universal.  Seu oponente são os eleáticos, sobretudo Parmênides de Eleia que o acusa de conceder demasiada importância aos dados fornecidos pelos sentidos. Parmênides dizia que o movimento é uma ilusão e defendia a tese do imobilismo universal. Afirmava: “O ser é e o não-ser não é”, sentença que vai dar base para todos os tratados de lógica surgidos posteriormente.

 

            Quase todas essas escolas filosóficas concentraram as suas investigações basicamente na physis, termo grego que se traduz, normalmente, por natureza. O conceito de natureza, para um grego antigo, difere muito de nosso conceito de natureza moderno. Para um grego antigo, natureza é tudo aquilo que brota, emerge, surge etc. por si mesmo. Não há nenhuma força por trás da natureza fazendo com que as coisas surjam. A ação de fazer todas as coisas surgirem é a própria natureza.

 

            As investigações filosóficas, na Grécia clássica, a partir de Sócrates, dão uma nova guinada e ganha um outro rumo. Agora, elas se voltam para o homem. Inaugura-se um novo modelo de investigação, denominado de antropológico. O homem torna-se o objeto central das investigações. Mas Sócrates prima pela essência do homem, ao passo que os sofistas –  professores ambulantes, que ensinavam a arte da eloquência – visavam o homem individual, fazendo deste o seu objeto de conhecimento para alcançar sucesso pessoal. Desse modo, em face das discussões travadas em praça pública –  ágora –, entre sofistas e filósofos, a filosofia atinge o seu coroamento, na Grécia antiga, com os três grandes filósofos, dois atenienses, Sócrates e Platão, e um estagirita, Aristóteles.

 

            Assim, como vimos acima, a filosofia veio, ao logo desses dois mil e setecentos anos, tecendo uma nova maneira do homem se ver e ver o universo e, além disso, tentando romper com determinados pontos de vista e dogmas que em nada contribuem para o avanço do ser humano. Logo, filosofar não é se colocar como o dono da verdade, mas, pelo contrário, é se colocar na condição de que nada se sabe, pois assim, novas portas e novos horizontes vão se abrir. Desse modo, fica desde já aqui um convite para que nos despertemos para um novo pensar, um pensar que procura pensar o próprio pensar. Assim é o pensador, isto é, aquele que pensa pensamento.